**O problema deste filme está no enredo: partindo de uma premissa errada, todo o enredo acaba por estar mal.**
Há certos filmes que nós, mesmo com toda a boa vontade, não conseguimos achar que cumprem o que é necessário para serem decentes. Este filme é um deles, e a culpa é quase totalmente de um enredo tristemente mal escrito, que ultrapassa todas as barreiras da lógica para criar uma história sem qualquer sentido.
Normalmente, eu deixo os aspectos técnicos de um filme para o fim das minhas resenhas, mas desta vez é precisamente aqui que vou começar, porque de facto é nos valores de produção e nos efeitos visuais e CGI que o filme me parece mais bem trabalhado. O filme não tem um bom orçamento, mas os efeitos são credíveis e parecem bons o suficiente. Os cenários também não são um problema, sendo uma história ambientada no nosso tempo, e numa localização incerta do Midwest Americano. A edição é regular, o ritmo é agradável, e a música faz o que precisa.
O elenco é maioritariamente feminino, sendo que as melhores interpretações vêm das mãos de Elizabeth Mitchell e Gideon Adlon. Há ainda algumas outras actrizes que vão tentando fazer o que podem, mas a juventude do elenco não permite grandes esforços dramáticos, nem a leveza do filme o exige verdadeiramente.
Mas o que realmente derrota este filme é a sua trama: o filme tenta recriar, no nosso tempo, a febre de caça às bruxas que existiu, pontualmente, nalguns lugares da Cristandade durante os séculos XV até XVII. Esse movimento tem raízes mais antigas: a religião cristã sempre condenou as práticas de bruxaria, e há leis contra as bruxas em várias sociedades e civilizações antigas, até ao Império Romano. A última mulher a ser oficialmente executada por bruxaria na Europa foi-o em 1782, sendo que ainda há países modernos, mormente de religião islâmica, que condenam a bruxaria formalmente nos seus códigos penais.
Acontece que simplesmente não faz qualquer sentido tentar recriar a caça às bruxas num país como os EUA, tão abertamente democrático e defensor das liberdades individuais dos cidadãos. Mesmo se partirmos do princípio que a magia existe e a bruxaria é real (e há muitas pessoas, na actualidade, que acreditam nisto), é inconcebível que um país democrático possa proibir a magia ou a prática de feitiçaria, mesmo que com objectivos negativos. É quase como proibir alguém de dizer palavrões e praguejar: por mais errado que possa ser, é um direito que ninguém me pode tirar, se eu não estiver a ofender ninguém. Penso que é inconcebível que o Congresso dos EUA aprovasse uma emenda constitucional proibindo a bruxaria, e isso deita por terra tudo o que o filme tenta fazer depois. Simplesmente não faz sentido.