**Um filme que permanece fresco e agradável, ainda que a trama sofra de clichés irritantes e outra ordem de problemas.**
A dança é uma daquelas artes que pontualmente é retractada pelo cinema, e este filme é razoavelmente parecido com outros filmes que se debruçam sobre o tema das danças de salão e das grandes competições de dança (eu estou a pensar no exemplo mais evidente, “Shall We Dance”, mas há outros). Dirigido por Baz Luhrmann, é um dos filmes menos aclamados da carreira do director, mas o facto de ter passado despercebido não lhe retira qualidades: é sem dúvida um bom filme para ver e a história que nos traz continua fresca.
Não vale muito a pena resumir a trama, que se centra num jovem adulto, sob forte pressão para ganhar um concurso de dança muito importante, e na relação que ele estabelece com a sua parceira de dança recém-descoberta, uma principiante que rapidamente se torna a sua namorada. O facto é que este jovem tem uma alma bastante criativa e quer dançar sem se sentir preso à execução milimétrica de passos e coreografias já existentes e consagradas. Isso desagrada imenso ao presidente da Federação Australiana de Dança, que encara essa criatividade como um acto rebelde contra os sagrados códigos da dança de salão. O filme é uma comédia romântica muito eficaz, com momentos muito espirituosos e envolventes que funcionam maravilhosamente bem. A energia e alegria que emana é contagiante e faz o ritmo do filme acelerar, fazendo passar o tempo muito rapidamente. No entanto, a trama romântica é particularmente cliché e torna o filme previsível ao ponto do absurdo: afinal, eu sabia como ia terminar meia hora após ter começado a ver o filme!
Se o roteiro tem os seus pontos fracos, isso é amplamente compensado pelo trabalho bem estruturado e notável dos actores principais: vamos esquecer o facto de que até os óculos de Fran, a personagem de Tara Morice, são um velho cliché regular em telenovelas, e ver o trabalho que a actriz desenvolve em torno da personagem: não sendo um esforço digno de prémios, é sem dúvida merecedor de uma nota positiva. Paul Mercurio, o actor central de toda a história, é excessivamente carrancudo e até mesmo bruto com a sua parceira e com as pessoas que o rodeiam. Também não podemos ignorar que não tem qualquer tipo de carisma (talvez por isso não teve sucesso como actor). Porém, estabelece uma relação de trabalho muito boa com Morice e os dois desenvolvem-se harmoniosamente juntos. É a união dos esforços de ambos que faz com que as coisas resultem. Os actores secundários tiveram mais sorte com as personagens: Bill Hunter tem direito a uma personagem muito interessante, com nuances grotescas, mas bem elaboradas, e Pat Thomson também fez um trabalho bem feito.
A nível técnico, o filme destaca-se não só pela excelência da sua banda sonora, onde eu gostaria de destacar a versão de “Time After Time” (um clássico que nunca sai do ouvido de quem viveu os anos 80 e 90), como também pela boa qualidade dos cenários, figurinos e adereços utilizados. Eu não sei se o filme teve um orçamento muito abonado, mas vê-se que houve um investimento forte e consistente nestes elementos, muito em particular na construção dos espaços e na concepção dos vestidos e indumentárias de danças usadas nas cenas de competição.