One Battle After Another é um olhar sardónico sobre temas pesados. Se fosse uma pessoa, seria aquele tipo que todos conhecemos, que não leva nada a sério, faz piadas sobre tudo, mas nos seus olhos percebe-se que aquilo é um mecanismo de defesa e lá dentro reina o terror do mundo à sua volta.
A sua história é, à primeira vista, simples. Pat (Leo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor) são revolucionários, membros de um grupo de extrema-esquerda que procura, através de ataques ao sistema, precipitar a revolta e a mudança de regime.
Quando o grupo é desbandado, os seus membros capturados pelas forças da lei, Pat, agora Bob, foge com a filha recém-nascida de ambos e inicia uma vida de clandestinidade. Steven J. Lockjaw (Sean Penn) é uma alta figura da agência anti-imigração que, em troca de proteção, coagiu Perfidia a iniciar uma relação sexual, facto que 16 anos mais tarde ameaça descarrilar a sua entrada numa sociedade secreta de supremacia branca a operar nos mais altos níveis do governo. Lockjaw inicia então uma caçada a Bob e à sua filha, para enterrar o seu segredo. O que se segue é uma fuga desesperada e a exumação de verdades sórdidas.
Esta aparente simplicidade é um canto de sereia ao espetador. Dentro dela encontramos uma dinâmica de géneros, exemplificada pela relação de Perfidia e Lockjaw, um homem conservador, racista, mas que revela, no seu interior, o desejo de ser dominado e humilhado pelo objeto do seu ódio. Lockjaw é uma figura que se revela no desenrolar da trama, cada vez mais patético, um homem pequeno de alma, cruel de coração. Mendiga a validação dos seus superiores e pisa os que perceciona como inferiores.
Embora a sua ligação a Perfidia seja profundamente tóxica, baseada na força e ameaça, o seu poder é ilusório, pois é Perfidia que o domina, usa e descarta quando a sua utilidade cessa.
Perfidia é a personagem mais fascinante de toda a peça. Supostamente revolucionária por vocação, torna-se imediatamente claro que a sua atividade é impulsionada mais pelo vício do risco, pela adrenalina de viver fora da lei, no submundo, a ideologia apenas uma desculpa para causar caos e nele realizar-se. A revolução é uma desculpa, a revolucionária uma persona cuidadosamente construída para servir de álibi à sua própria psique, uma justificação para o seu endeusamento da anarquia, da sua propensão inata à entropia.
A sua presença é magnética, Teyana Taylor é sublime, capturando o carisma irresistível e a sedução selvagem de Perfidia. Sem ela, o filme nunca mais é o mesmo. Uma pena.
DiCaprio é suficiente como Bob. Sean Penn é superiormente mesquinho e contido. Um mestre. Impossível não referir Benicio Del Toro que, num papel secundário, com apenas uma mão cheia de cenas, deixa a sua marca indelével em toda a fita.
A sua personagem, “Sensei”, contrasta com os revolucionários do grupo de Bob. Enquanto estes se agarram ao dogma, às ações de guerrilha sem sentido cujo efeito é apenas performativo, Sérgio St. Carlos, Sensei de um dojo de karaté, é líder de uma célula de resistência que protege pessoas reais, as vítimas da perseguição anti-imigração do governo. Fá-lo na obscuridade, sem gritar slogans cansados nem procurar mais do que assegurar a sobrevivência do seu povo.
É, aliás, a forma como os revolucionários são apresentados que pode causar algum desconforto. Brotado, talvez, de uma tentativa de infundir o roteiro de alguma neutralidade, o grupo de Bob, French 75, é reduzido a nada mais do que um misto de incompetência, delírio e, mesmo, estupidez. Mais _cosplayers_ do que revolucionários. É uma tentativa desastrada de _«both-sidesism»_ de P.T. Anderson que peca pelo absurdo.
Do outro lado da barricada, as ações das forças governamentais emulam o que se passa no mundo real, com as ações selváticas do ICE, nos EUA, país dos livres, bastião da democracia e da «rule of law». O retrato é fiel, frio, sem condenação aparente ou sermão, apenas a exibição crua de ações que fariam Reinhard Heydrich orgulhoso.
Paul Thomas Anderson é magistral, fazendo jus ao seu estatuto no panteão dos melhores realizadores vivos. O filme é longo, mas com um ritmo maníaco, cenas claustrofóbicas onde reina a pressão psicológica, entrecortadas com uma sátira contida que funciona a maior parte das vezes. A perseguição de automóvel é gloriosa.
Não é o seu melhor filme, nem sequer está perto. Todavia, é uma obra digna de atenção. Balança-se na dicotomia entre seriedade e humor, entre liberdade e opressão, entre o grito da revolução e a impossibilidade dela. O problema é que ensaia dizer algo e acaba por não dizer nada, deixando no ar o aroma da cobardia.