**Uma obra-prima.**
Há certos filmes que se destacam, permanecem através do tempo, ganham estatuto *cult* ou de clássicos. Este filme é decididamente um deles e com toda a justiça, na medida em que faz um relato muito fiel do ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, no Havai.
Para os poucos que não sabem, os EUA mantiveram-se afastados da Segunda Guerra Mundial até este ataque. Até aí, a guerra era um problema dos países europeus (que naturalmente se estendia também aos territórios que dependiam deles, como as colónias africanas e asiáticas). Os EUA ainda consideraram entrar na guerra só contra o Japão, no teatro da chamada Guerra do Pacífico, mas a sucessão de acontecimentos seguintes (a declaração de guerra do Eixo aos EUA, a 11 de Dezembro) justificou a adesão total ao conflito. O ataque ocorreu às primeiras horas de 7 de Dezembro de 1941, horas antes da declaração de guerra, mas a verdade é que as relações entre EUA e Japão já se vinham a degradar desde a invasão japonesa da Manchúria (1931), a opinião pública americana era muito contrária ao expansionismo japonês e os EUA retaliaram as ocupações de territórios europeus na Ásia com sanções económicas cada vez mais duras, negando-se a negociar sem que o Japão aceitasse um acordo prévio que os japoneses viam como humilhante. Isto é, em boa parte, Pearl Harbor aconteceu porque a diplomacia norte-americana não soube ter jogo de cintura. O ataque era de tal modo previsível que Roosevelt decretou, meses antes, a passagem da Base Americana do Pacífico para o Havai e o reforço da presença militar nas Filipinas para dissuadir o ataque e aumentar a pressão para o Japão aceitar cedências diplomáticas que não queria. Ao mesmo tempo que Pearl Harbor, os japoneses atacaram também pontos e bases militares em Guam, nas Filipinas, em Singapura e Hong Kong, além de invadirem Timor-Leste, território de Portugal. Como o filme diz, e muito bem, o ataque foi um sucesso relativo: conseguiu atrasar e dispersar a frota americana, mas os danos causados foram reparáveis e os navios porta-aviões, que era vital inutilizar, nem sequer estavam no porto.
O filme é muito fiel aos factos históricos e isso é uma mais-valia, visto que é um acontecimento importante para a Segunda Guerra Mundial. O esforço para recriar ambientes e factos foi ao ponto de se usarem aviões da época e recriarem as técnicas de combate. No entanto, é um daqueles filmes de guerra em que o público, essencialmente, vê um documentário ficcional do que aconteceu. A construção das personagens, por exemplo, é muito limitada, restringida ao que fizeram e ao papel no acontecimento, não havendo nuances nem sub-enredos dramáticos. No filme podemos ver um excelente elenco, onde eu destacaria Martin Balsam, Sô Yamamura, Jason Robards, Takahiro Tamura, Tatsuya Mihashi, George Macready e James Whitmore. Todos fizeram um trabalho virtualmente imaculado, mas a construção das personagens também não exigia muito dos actores.
Tecnicamente, o filme é practicamente perfeito. Temos uma cinematografia competente, que faz um uso hábil do sol, da luz e das nuvens; bons efeitos especiais, visuais e de som, adereços e cenários excelentes e totalmente de acordo com o tempo e o contexto histórico, além de uma banda sonora discreta mas eficaz. Um outro detalhe muito agradável, para além de tudo o que se disse, é o uso da língua japonesa, pois infelizmente é costume os filmes americanos serem integralmente falados em inglês, mesmo que representem situações ou pessoas onde a língua inglesa não se usaria.