Depois de anos a tropeçar na fracassada tentativa de explorar o Multiverso com argumentos rebuscados, sem muito sentido ou ambição, somando a uma overdose de novas personagens pobres, chatas e mal exploradas, a Marvel Studios acerta finalmente com Thunderbolts. E fá-lo de forma surpreendente: não ao tentar inovar, mas ao focar-se em contar uma boa história.
Thunderbolts é o melhor filme da Marvel em anos, pois finalmente compreendeu algo essencial: não precisamos sempre de reinventar a roda, o importante é que ela esteja funcional. Por outras palavras, a estrutura da narrativa é familiar, aqui temos um grupo de desajustados forçado a unir-se contra uma ameaça que não pode ser enfrentada pelos Vingadores.
A dinâmica entre os protagonistas é o verdadeiro coração do filme. Ao contrário de outros filmes semelhantes que pecam pelo excesso de personagens ou falta de desenvolvimento, aqui há espaço e tempo de ecrã justo para todos. É quase impossível destacar apenas um favorito, pois todos os membros que compõem os Thunderbolts têm momentos que os definem. A química entre eles é genuína e alimenta tanto os momentos de ação como os mais dramáticos.
A realização é fantástica, o ritmo é excelente, as duas horas de duração passaram sem se dar conta, tudo isto graças ao mérito de uma edição fluida, que sabe quando acelerar e quando dar espaço à história.
Os momentos de ação, menso que não sejam inovadores, são bem coreografados e visualmente apelativos. Neste campo, destaco para o design do vilão, The Sentinel, e os seus poderes, que bebem inspiração das sombras reais deixadas pelas vítimas da bomba atómica em Hiroshima e Nagasaki. São alguns dos elementos que o tornam num dos vilões mais complexos do estúdio até agora.
Outro ponto importante é que mesmo debaixo do entretenimento típico da Marvel, esta produção esconde metáforas sobre trauma, culpa, depressão e a luta contra os próprios demónios. Também é um filme sobre não deixarmos que o pior de nós nos defina, sobre reconciliação com o passado e a possibilidade de redenção.
Thunderbolts não é revolucionário, nem o tenta ser. Mas é uma lufada de ar fresco num universo que precisava urgentemente de reencontrar o foco. É aquilo que Eternals tentou ser, mas que falhou. É, acima de tudo, uma prova de que o cansaço com a Marvel talvez não seja com os super-heróis… mas com a má escrita e a ambição desmedida.