**Uma mulher marcante por trás de um homem marcante.**
Fazer filmes biográficos em torno de figuras marcantes do passado recente nunca é uma tarefa fácil e este merece um louvor, pelo esforço e coragem. Eu digo isso porque não é possível falar de Snu Abecassis sem falar de Francisco Sá Carneiro, um dos mais notáveis políticos do século XX português (não por feitos ou obra, mas pelo carisma e impacto na mentalidade política nacional).
Apesar de estarmos a comemorar os cinquenta anos da revolução de 25 de Abril de 1974, que abriu o caminho da democratização de Portugal, não consigo deixar de pensar que é um pretérito imperfeito, uma história mal acabada na vida do país. Se quase ninguém se atreve a pôr em causa o valor da devolução da democracia (devolução porque, apesar do que muitos apregoam, a revolução limitou-se a devolver uma democracia que Portugal já tinha tido com a monarquia constitucional, e que foi instaurada a primeira vez em 1834), não se observa igual consenso na leitura política dos acontecimentos da época. A prova é o facto de, ainda não se ter concluído nada sobre as causas da queda da aeronave em que morreram Snu, Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e outros. Acidente? Atentado? Só saberemos, provavelmente, quando não houver modo de tocar num cabelo dos eventuais responsáveis ou daqueles que lhes são, ou eram, mais chegados.
Snu Abecassis não era portuguesa: era de um país com forte cultura democrática e tinha outra maneira de pensar, uma largueza de ideias e visão muito para além do que a maioria das mulheres portuguesas conseguia num país atrasado e fechado ao mundo. Isso não só lhe permitiu singrar como líder da editora Dom Quixote, fintar os censores e posicionar-se como defensora de ideias perigosas, como a contracepção oral, o aborto, o planeamento familiar, como ajuda a entender o fascínio de Sá Carneiro e de outros que a conheceram. Não tenho dúvidas que as suas ideias ajudaram a moldar o pensamento dele, mas que ela também ficará sempre na sombra do homem que amou, e com o qual não se pôde casar.
O roteiro faz um trabalho razoável e permite-nos seguir o percurso de vida desta elegante nórdica. O tempo e a personalidade discreta do casal não dão azo a arroubos sentimentais, novelas latinas ou melodramas, pelo que nada disso entra aqui. Por isso, congratulo-me pela forma como Patrícia Sequeira percebeu os limites a respeitar. Numa nota menos boa, o final: quando o filme reconstitui o embarque dos passageiros na aeronave que cairia em Camarate, os outros passageiros, começando por Amaro da Costa, desaparecem. Porquê? É compreensível que a hipótese de atentado não seja mencionada de modo a tornar o filme politicamente neutro, mas a reconstrução do momento devia contar com todos os que, de facto, pereceram naquele “incidente”. A cinematografia é muito boa, a escolha dos locais de filmagem foi criteriosa, os adereços e veículos foram bem seleccionados e a concepção de cenários e figurinos é impecável. Isto, somado à introdução de vídeos e de reportagens da época, ajuda a reconstruir a época. A banda sonora é atmosférica e faz um trabalho competente, mas sem ficar no ouvido.
Inês Castel-Branco recebeu a oportunidade de uma vida para mostrar talento e capacidade fora do teatro ou televisão. Agarrou-a firmemente e desembaraça-se francamente bem, com um sotaque leve que nunca parece forçado e uma elegância natural. Pedro Almendra nem sempre a acompanha: apesar de ser muito parecido, fisicamente, a Sá Carneiro, não tem carisma ou presença, mas o filme também não é dele. Inês Rosado e Maria João Pinho dão contributos positivos. Pedro Saavedra é suficientemente ardiloso para interpretar Mário Soares, mas não tem substância, material ou tempo para elaborar a personagem.