**Um grande e violentíssimo filme sobre tráfico de drogas e paranóia, com grande elenco e uma grande produção, mas onde tudo é histriónico e exagerado.**
Apanhei este filme ontem na televisão e decidi vê-lo na íntegra. Já tinha ouvido falar do filme e na boa prestação dramática que Al Pacino tivera nele, e por isso decidi que era o tempo de eu comprovar por mim mesmo. O filme, dirigido por Brian de Palma, marcou bastante a sua época, mas está actualmente um pouco esquecido. Compreende-se: além da violência gratuita e da crueza com que aborda o tema do tráfico de drogas, não temos aqui nenhuma personagem de que sejamos capazes de gostar e isso, de certo modo, põe uma parede entre o filme e o espectador.
Brian de Palma é um director bastante sólido e que, ocasionalmente, nos dá bons filmes. Infelizmente, não vi tantos filmes dele quanto gostaria: gostei bastante de “Carrie”, que para mim é a sua obra-prima até agora, e de “Intocáveis”. Neste filme, o director fez um trabalho muito competente, principalmente do ponto de vista técnico, mas a verdade é que o filme não tem alma e, ao fim de um tempo, parece apenas uma pura carnificina. A cena da serra eléctrica, bem como o tiroteio final, são dignas de antologia.
Tecnicamente, o filme é impecável e tem toques de produção de luxo: a cinematografia é realmente bonita, destaca muito bem o sol e a luminosidade da Flórida e dá-nos a real sensação do clima tropical. Os cenários e os figurinos não só se encaixam muito bem na década em que tudo acontece como conseguem enfatizar a sensação de novo-riquismo e de ascensão rápida das personagens. Claro que é tudo absurdamente kitsch, até a banda sonora nos transmite isso! Porém, não podemos esperar outra coisa de personagens sem gosto, sem cultura, sem instrução e com toneladas de dinheiro para ostentar! Porém, vou concordar se me disserem que o filme é excessivamente longo, com algumas cenas um pouco acessórias ou até mesmo inacreditáveis (aquela cena onde Gina, enfurecida, se dá sexualmente ao irmão, foi capaz de me deixar boquiaberto). Com pouco esforço, podia ter sido retirada cerca de meia hora a este filme, tornando-o mais palatável.
O roteiro do filme assenta numa re-prudução de um original de 1932, que pouquíssimas pessoas conhecem, feito por Howard Hughes. Talvez o nome desse filme seja ligeiramente inspirado na figura de Al Capone, que tinha precisamente a alcunha pouco lisonjeira de “scarface”. O facto é que a história dos filmes é bastante semelhante. Numa das interpretações mais notáveis da sua carreira, Al Pacino é histriónico, desagradável e paranóico ao extremo. O exagero intencional da personagem dele pode desagradar, mas parece-me estar de acordo com um filme onde tudo é exagerado. Todavia, não considero este trabalho um dos melhores do actor, gostei mais de o ver noutros papéis. Robert Loggia e Steven Bauer dão um apoio muito feliz, mas Michelle Pfeiffer tem pouco para fazer além de parecer ‘sexy’ e fútil. Porém, Mary Elizabeth Mastrantonio e F. Murray Abraham têm personagens francamente subaproveitados.