**Contém spoilers leves**
Esse é o segundo filme do Yorgos Lanthimos que assisto, sendo o primeiro "Dente Canino" (2009). Apreciei Pobres Criaturas muito mais que Dente Canino, apesar da pegada parecida de aprisionamento, criaturas e pessoas criadas longe da sociedade, adultos manipuladores e controladores e muita controvérsia social. Esse filme é desconfortável na medida adequada para uma experiência minimamente agradável, ao contrário de Dente Canino que é puramente desagradável. Não no sentido de ser ruim, mas no sentido de te fazer se retorcer de nervoso por causa do controverso. Não que isso seja reprovável para um filme, afinal de contas a arte pode ser desagradável; é que Pobres Criaturas cativa mais, naturalmente.
A atuação brilhante de Emma Stone, que fez um papel que eu não estou acostumada de vê-la, foi a coroação de um filme que aborda o absurdo de diversas formas. Aqui, as pessoas que assistem ao filme são obrigadas a refletir os limites da ética científica em um universo de época, mas futurista ao mesmo tempo. Mas também encaram um dilema: uma pessoa adulta por fora e mais "infantil" por dentro é uma pessoa adulta de fato? Quais são os limites da sexualidade desse ser e da interação dos outros adultos com essa pessoa? Vi comentários tentando criticar e jogar esse filme na lata de lixo argumentando que era uma "apologia à pedofilia". Essas pessoas são, para dizer o mínimo, desprovidas de qualquer sinal de inteligência para afirmar uma coisa dessas. De qualquer forma, Lanthimos joga com os limites do socialmente aceitável ao abordar uma coisa que muitos outros fizeram antes dele: Freud, por exemplo. A coisa, no caso, a sexualidade na infância e/ou de pessoas com deficiência. Algumas pessoas também não gostaram do retrato do trabalho sexual no filme, julgando ser "romantizador de prostituição". Me deem um tempo! Discordo dessas leituras e na minha opinião o trunfo do filme é justamente jogar com o que deixa a parte conservadora das pessoas furiosa.
Sem falar na excelente ambientação, escolha de figurino, etc. Realmente um dos melhores filmes a que assisti esse ano, e me deixou pensando nas minhas próprias experiências com minha sexualidade enquanto pessoa autista (lógico que isso não significa que Bella Baxter seja autista ou algo do tipo, não foi isso que quis dizer).
Ah, uma coisa que me deixou um pouco perturbada foi ver o Mark Ruffalo no papel de Duncan, não porque ele tenha feito um trabalho ruim (na verdade, foi excelente), mas porque tô acostumada a vê-lo em papéis muito mais pastelão. Acho que a mesma vibe da Emma Stone. Aliás, ver esses dois atores transando em tela foi uma coisa completamente fora da minha imaginação! Muito engraçado!
Detalhe: filme R-rated não ao acaso, não assista com crianças, adolescentes, familiares, amigos de familiares, sei lá. Tem putaria pra caralho.