**Um remake bem desenvolvido de uma história profunda e bem conhecida do cinema.**
Tendo eu visto, e gostado bastante, do filme original de 1973, protagonizado de maneira icónica por Steve McQueen, fiquei seriamente intrigado e interessado em ver este remake. É claro, as comparações acabam por ser inevitáveis posto que a história é a mesma, boa parte das personagens são as mesmas e o local é exactamente o mesmo. Ambos os filmes se baseiam nas memórias autobiográficas de Henri “Papillon” Charrière, que relatou num livro os seus difíceis anos de reclusão na mais temida prisão do sistema correccional de França: a Colónia Penal da Guiana Francesa, da qual fazia parte a infame Ilha do Diabo, na qual se isolavam os prisioneiros mais difíceis de quebrar.
Comecemos por deixar claro que, tal como referi na crítica ao filme original, o material escrito por Charrière tem imensas invenções e exageros, pelo que a conduta dos guardas e responsáveis da prisão não seria, provavelmente, assim tão sombria. Houve, da parte do escritor e ex-presidiário, a vontade de embelezar a narrativa e tornar um lugar de castigo e isolamento numa coisa ainda pior e mais digna de infâmia, além de servir de derradeiro protesto de inocência, apontando o dedo ao sistema judicial francês pela condenação de alguém – ele mesmo – que se diz inocente e uma vítima.
Considerando tudo isto, observemos o filme dirigido por Michael Noer e com escrita de Aaron Guzikowski. Eles conseguiram resistir à tentação do facilitismo barato e evitaram copiar a papel-químico a trama do filme antecessor, introduzindo diferenças subtis que, no entanto, podem incomodar os espectadores mais puristas. Pessoalmente, encarei isso como um bónus. Afinal, se eu quisesse ver o filme original ou ler o livro, eu faria isso e pronto. Ao contrário do livro original, e do próprio filme de 1973, esta obra não quer ser um libelo de acusação contra o sistema penal francês de há oitenta anos e as suas eventuais falhas. Quer tão-somente contar uma história empolgante de resiliência e de resistência, e consegue fazer isso com grande eficácia. Qual dos filmes é o melhor? Acho que depende dos gostos individuais de cada espectador.
Sendo um filme moderno, não é de admirar que faça o melhor uso dos recursos e técnicas mais recentes para nos dar visuais mais impressionantes e uma sensação mais intensa da vida naquela prisão. Isso não é um mérito que eu deseje destacar demasiado porque é algo que, simplesmente, se exige de uma longa-metragem com orçamento decente. Porém, é bastante interessante ver a forma como recriaram cenários e situações, e como a fotografia procura enfatizar a solidão, o confinamento, a alegria e esperança ocasionais de cada uma das personagens.
O elenco é solidamente liderado por Charlie Hunnam e Rami Malek, uma dupla de bons actores de uma geração talentosa e prometedora. Malek já venceu um Óscar e tem tido o gosto de fazer trabalhos cada vez mais interessantes e desafiadores, oferecendo-nos aqui uma personagem tímida, excepcionalmente inteligente e pouco optimista quanto às fugas e rebeldias do seu companheiro de infortúnio. Hunnam, que eu conheço mal, confesso, é um actor que me parece muito prometedor e que foi capaz de uma liderança carismática e impactante. Estou convicto de que ouviremos falar mais deste actor. Ambos têm ao seu lado um conjunto de actores secundários capazes, que lhes dão o suporte necessário.