**Um filme sombrio acerca de uma Rússia perdida dentro de si mesma.**
Lançado em 2018, este filme surgiu quatro anos antes do rebentamento da guerra entre a Rússia e a Ucrânia (se ignorarmos a questão da Crimeia, a partir de 2014), mas ainda é uma forma interessante de falar da forma como a Rússia vê o Ocidente. De facto, apesar de discretas alusões ao período soviético (como as cortinas rubras da escola de pardais), a acção desenrola-se no nosso tempo e é algo assustador pensar que aquele país ainda cultiva velhas ideias soviéticas no que toca à relação com os ocidentais. Eu digo isto porque o filme é baseado num romance feito por um antigo espião norte-americano. Eu não sei até que ponto ele conhece os meandros da Rússia moderna, mas é triste pensar que os “pardais” podem ainda existir nas fileiras das agências secretas russas.
O filme acompanha o percurso descendente de uma jovem bailarina do Teatro Bolshoi: após uma grave lesão, ela é obrigada a abandonar a carreira e levada para uma escola de “pardais” por um tio manipulador e calculista. Ela torna-se naquilo que é obrigada: uma espiã treinada na arte do quarto, da sedução e da manipulação pelo desejo. O treino que é forçada a fazer é atemorizador e psicologicamente brutal: afinal, o corpo dela passa a pertencer ao Estado. O filme não se importa em chocar-nos, e este não é o tipo de filme que eu veria com os meus avós (fica o aviso para os mais susceptíveis ou púdicos). Mas apesar disso, é inegável a elegância com que a trama se desenvolve e a beleza do final, à altura dos grandes filmes de espionagem. Os diálogos, as situações e as personagens são muito bem delineados, sem pressas, com o tempo necessário.
A componente visual do filme é magnífica: trabalhando com cores frias e um ambiente enevoado, a fotografia transporta-nos mentalmente para o Leste Europeu, onde o tempo e as mentalidades parecem sempre mais fechadas e sombrias. Como disse, há uma série de alusões visuais ao tempo soviético e aos grandes filmes de espionagem da “détente”. Podemos ver isso nos cenários e figurinos, na concepção de algumas cenas e diálogos. A edição é excelente, trazendo-nos uma história bem estruturada e onde tudo se encaixa logicamente. A banda sonora é discreta, mas contribui para o ambiente de desconfiança.
É no elenco luxuoso que o filme encontra boa parte da sua força: Jennifer Lawrence faz um trabalho talentoso. Até ao momento, acho que Lawrence tem privilegiado papéis que condizem consigo mesma, personagens poderosas e de carácter intenso, tal como o dela. Porém, a escolha de um papel com tanta nudez e carga erótica é, sem dúvida, um salto para fora da zona de conforto e isso merece um cumprimento. Lawrence domina o filme e contracena maravilhosamente com Jeremy Irons (que não traz surpresas, mas é sempre uma adição de qualidade a qualquer projecto) e Matthias Schoenarts (excelente para um vilão frio e calculista). Infelizmente, não posso falar tão bem de Joel Edgerton. O actor é um erro de casting, parece totalmente fora da personagem na maioria do tempo. Falta-lhe a presença e carisma necessários a um protagonista, e como resultado ele desaparece sempre que Lawrence está por perto. Por fim, uma nota positiva para a veterana Charlotte Rampling, que aparece pouco, mas em momentos decisivos.