**Impressionante e tecnicamente notável.**
Qual a sensação de estar preso dentro do nosso próprio corpo? Sinceramente, não consigo nem imaginar, deve ser algo sufocante. Mas é precisamente isso que este filme aborda, graças a um testemunho na primeira pessoa, adaptando o livro autobiográfico escrito por Jean-Dominique Bauby, redactor-chefe da revista de moda Elle, nos seus últimos meses de vida, logo após um AVC o deixar totalmente paralisado, com excepção de um dos olhos, que usava para comunicar graças a um engenhoso e lento sistema de comunicação.
É um filme impressionante, a começar pela temática e pela narrativa na primeira pessoa. Como ele, nós começamos o filme sem perceber bem o que se passa, mas gradualmente vamos, com ele, descobrindo a dura realidade. Bauby era, então, um homem na força da vida e com fama de galã e de aventureiro e desportista. Este começo abrupto transporta-nos logo para o ambiente do filme e para a sensação desoladora daquele homem, que de repente viu a vida desaparecer e se limitar a uma cama, onde nem sequer se pode mexer ou falar. É arrasador.
Um dos aspectos que mais chama a atenção neste filme é o magistral domínio das técnicas de filmagem e ângulos de câmara para nos mostrar, exactamente, o que aquele homem via, e nos colocar directamente na pele dele. Aproveitando todas as técnicas cinematográficas, do close-up ao desfoque, conseguimos ver pelo único olho bom de Bauby, e isso dá ao filme outro impacto. Os cenários e figurinos são extraordinariamente realistas e conferem ao filme todo o peso de uma história verídica de sofrimento, mas também de superação para além do que se poderia pensar possível.
O elenco é muito bom. Sendo um filme francês, a língua usada é, naturalmente, a francesa, mas eu confesso que gostei bastante disso, posto que vários dos actores envolvidos são assíduos em filmes anglófonos e é agradável ouvi-los na sua língua nativa. Mathieu Amalric é um excelente actor e foi perfeito no papel de Bauby, e na forma como expressou, ainda que de forma estática, sem se mexer, sendo a sua voz ouvida como se fossem os seus pensamentos. Emmanuelle Seigner e Marie-Josée Croze também merecem destaque pelo seu trabalho positivo.