**O poder e a importância das raízes culturais.**
Este foi o primeiro filme neozelandês que vi, pelo menos até onde me recordo e tenho essa consciência. É um filme violento, com uma brutalidade crua que nos chocar por soar de modo autêntico. Violência doméstica? Violações de menores? Não é algo que só vemos no cinema. É algo que vemos num jornal. É isso que mais nos choca: sabermos que é algo real. E desde já deixo o aviso: há filmes violentos, mas este é realmente intenso e chocante… muito.
O filme passa-se em Auckland, num subúrbio pobre construído pelo Estado para pessoas com rendimentos muito baixos. Ali vive uma população esmagadoramente Maori, aparentemente à margem da sociedade anglo-saxónica, branca e elegante. Este país deixou de ser uma colónia há muito, mas, como sucede em muitos lugares do mundo, a etnia dominante ainda é a dos descendentes dos europeus e há um certo racismo dominante. Em meio a isto, esta população Maori parece perdida, sem rumo em meio aos vícios e à criminalidade. Será assim a realidade? Não sei, mas uma breve pesquisa nalguns jornais neozelandeses indica que o problema é real.
Lee Tamahori fez um bom trabalho ao impedir que este filme se transformasse numa coisa que não devia ser, isto é, um dramalhão choroso ou um manifesto anti-racista a que já nem se dá a merecida atenção. Ao invés, o director parte desta base e faz uma afirmação, contundente e sincera, da importância pela busca das raízes culturais e da maneira como isso muda a nossa maneira de ser e a nossa atitude na vida. Por que Jake Heke faz o que faz? Porque cortou todos os laços com a sua cultura e raízes após ter fugido com a esposa para se poder casar. Ao fazê-lo, refugiou-se na violência. Também os filhos viriam a sofrer com isso, e só um reencontro com as suas raízes lhes dá a orientação de vida que tanto necessitam, e que instintivamente procuram.
O filme tem excelente cinematografia e visual. Pessoalmente, não gosto muito dos gráficos que foram usados para os créditos iniciais e para o final, acho que destoam do filme, mas é apenas a minha opinião. Discreto nos efeitos, na banda sonora e nos sons, é um filme que procura ser eficaz, mas discreto, para dar à história e aos actores todo o espaço para terem a nossa total atenção. Mesmo assim, vale a pena ver os cenários, particularmente a casa dos Heke e o carro depredado onde vive Toot, um jovem sem-abrigo.
O filme tem uma excelente direcção, roteiro e cenários, mas nada disso iria funcionar bem sem actores competentes. Rena Owen preenche largamente este requisito com um trabalho digno de ser estudado pelos aspirantes a actores. A actriz é extraordinária, faz um trabalho tão bom que é pouco compreensível como o filme não foi considerado, pelo menos, para o Óscar de Melhor Actriz (será por não ter tido a tal semana em Los Angeles que a Academia exige?). O trabalho de Temuera Morrison e Mamaengaroa Kerr-Bell também merece uma nota de louvor.