**UM GRANDE DRAMA DE FUNDO HISTÓRICO QUE INVENTA UM GRANDE AMOR ENTRE DUAS FIGURAS HISTÓRICAS QUE DORMIRAM JUNTAS POR TODOS OS MOTIVOS MENOS O AMOR.**
CRÍTICA QUE FIZ APÓS REVER O FILME.
Este foi o primeiro filme dinamarquês que eu vi e fiquei bem impressionado com a qualidade do trabalho que aqui foi desenvolvido. Baseado em factos reais, o filme mostra o triângulo amoroso entre o rei Cristiano VII da Dinamarca, a esposa, rainha Carolina Matilde, e o médico da corte, o iluminista germânico Johann Friedrich Struensee. A situação é bem conhecida dos historiadores e o caso amoroso decorreu, sensivelmente, entre os anos de 1766 e 1772, quando a ala política da rainha-mãe conseguiu afastar o médico e nomear uma regência estável. Sendo uma página tão bem conhecida da história do país, é natural que tenha inspirado Nikolaj Arcel. Surgiu assim a ideia para um filme sobre o assunto, uma ideia que não era nova, mas que nenhum director do país levara a bom porto. Na verdade, o cinema dinamarquês nunca produzira um grande drama de época.
Arcel começou a escrever o argumento com Rasmus Heisterberg, seu colaborador habitual. Por cerca de cinco anos, leram material historiográfico e literário sobre o tema, como o romance de 1999 “The Visit of the Royal Physician” e o drama erótico “Prinsesse af Blodet”, de Bodil S. Leth. Acontece que os direitos do primeiro livro tinham já sido vendidos e, para garantir que havia diferenças relevantes, preferiram contar a história da perspectiva da rainha, com o dinamismo e emoção de um romance recente onde ambição e desejo se misturam. Eles apresentaram o texto aos chefes da Zentropa Productions, estúdio onde trabalhavam, e convenceram-nos a financiar o filme com um orçamento de quase 8 milhões de dólares.
Pouco habituados a produções desta escala, eles decidiram filmar nos Barrandov Studios, na República Checa, onde não só era mais barato, mas havia pessoal técnico habituado a trabalhar em grandes produções de período. No entanto, a logística enfrentou problemas devido à barreira linguística e cultural entre pessoal checo, alemão e dinamarquês. As filmagens aproveitaram o rigoroso Inverno, o que teve eco na cinematografia, onde o frio é palpável e se mistura a uma paleta de cores frias e cenários impessoais e sem vida. Para filmar cenas mais dramáticas usaram câmaras de mão para aumentar o impacto e emoção. E tratando-se de um filme de época baseado em eventos e personalidades históricas, tentaram asseverar um mínimo de verosimilhança histórica e fidelidade factual aproveitando a arquitectura barroca do país, visível na cidade velha de Doksany e no Castelo de Kromĕříž. Para a iluminação, recorreram à luz natural e a velas; os adereços, em particular os instrumentos médicos, são adequados, mas são os figurinos o ponto alto da recriação de época graças ao trabalho meticuloso de Manon Rasmussen, que criou trajes segundo a moda da época adequando texturas e cores à personalidade das personagens: assim, a rainha vai usando cores mais escuras à medida que se envolve no adultério. Apesar disso, a produção não foi capaz de recriar tudo. Era financeiramente impossível dar à corte o aspecto caótico e confuso que tinha, com centenas de pessoas a cruzarem-se nos salões e a quase total falta de privacidade. A cena inicial, com o porto e o navio, foi feita em CGI e envelheceu terrivelmente mal.
Além do esforço de design de produção e figurino, o filme apresenta-nos bons actores num esforço credível e empenhado de interpretação. A jovem Alicia Vikander merece um louvor pela maneira como interpretou uma rainha jovem, carente e ingénua sem saber falar dinamarquês. A química física que estabeleceu com o parceiro, Mads Mikkelsen, é credível e intensa, criando no filme uma paixão arrebatadora onde todos são contra o casal. Falaremos disso mais tarde, mas o facto é que os actores trabalham bem juntos. Mikkelsen é excessivamente charmoso para a personagem, mas empenhou-se, aprendendo a andar a cavalo e dando ao médico a arrogância e petulância reconhecidas pelos contemporâneos. Quando vi o filme a primeira vez não fiquei impressionado, mas a minha avaliação do trabalho do actor foi melhorando à medida que eu lia mais sobre a figura histórica. O oposto aconteceu com a interpretação de Mikkel Boe Følsgaard, que deu vida ao rei, mas isso não é culpa do actor: ele fez o que lhe mandaram e a maneira como a personagem foi pensada funciona por nos dar um vilão simpático e humanizar a personagem. O problema é que suaviza MUITO a personalidade do rei.
De facto, o filme recebeu críticas negativas por diversos motivos: por ser longo demais para a trama que nos dá, por ser ritmicamente desigual. Porém, a maior crítica negativa que eu faço é a forma especulativa como o adultério da rainha foi tratado e a suavização da doença de Cristiano VII. Vamos por partes. Primeiro, o rei não era um tolo acriançado: na verdade, era um homem perigoso, violento, amoral, paranóico, autodestrutivo, o tipo de pessoa instável e brutal que dá medo ter por perto. Não há nada simpático nisso, por muito que isso seja fruto de uma doença e não de decisões conscientes. Segundo, o filme quer criar um grande amor proibido entre a rainha e o médico, mas ignora totalmente a trama política e as conveniências dela e dele! Struensee era apenas um intelectual arrogante de origens simples que subiu na vida graças a patronos e encontrou na carência da Rainha um veículo para o poder. Ele nunca a amou, ele usou-a para encetar, contra tudo e contra todos, a mais confusa e vertiginosa reforma política da Dinamarca, favorecendo as ambições de uma ala progressista à qual ele já pertencia! Amor? Só nos sonhos! Isto foi uma jogada política fria, calculada e que levou a um grave incidente diplomático entre Londres e Copenhaga quando Carolina Matilde foi definitivamente afastada da corte dinamarquesa. O que o filme faz é especular como um tablóide.