**No geral, um bom filme sobre um período negro da história mundial.**
Este filme leva-nos a um dos momentos mais dramáticos da história europeia: a Peste Negra foi a grande pandemia por excelência, matou milhões de pessoas em poucos meses e sem qualquer medida eficaz conscientemente tomada por não se saber rigorosamente nada acerca de vírus e da sua transmissão. Se hoje em dia enfrentamos pandemias consideravelmente mais benignas com um certo grau de confiança e conhecimento, devemos isso a estes momentos. Os surtos de peste seriam recorrentes ao longo de toda a Europa até ao século XVIII, mas nenhum foi como o de 1348. E sinceramente, custa-me pensar que algum dia a nossa civilização possa voltar a ter de passar por algo semelhante. Não estamos mais psicologicamente preparados para um grau tão elevado de mortandade.
Neste filme, um monge tenta colocar a salvo a mulher que ama, e logo em seguida abandona o mosteiro para se reunir a ela, aproveitando a passagem de uma escolta militar que vai para uma zona pantanosa onde se diz existir um povoado que, por artes maléficas do Demónio conjuradas por uma bruxa ou necromante, tem conseguido escapar aos avanços e recuos da doença. Claro, a missão dos soldados é dar caça ao necromante, ainda que isso signifique massacrar a aldeia.
O grande valor deste filme, para mim, é a maneira hábil como cria e constrói o ambiente de um período histórico em que, para a maioria das pessoas, se vivia à beira do fim dos tempos. Com a Igreja incapaz de travar a doença e todas as missas, procissões e orações sendo ineficazes para combater tão grande mal, o povo acreditava estar diante de um dos Cavaleiros do Apocalipse, e que Deus estava a castigar o Mundo. Reinava o medo e a superstição, e o filme lida habilmente com isso. Há, contudo, erros de anacronia, e várias personagens que soam estranhas pela forma pouco medieval como pensam e agem, mas eu estou disposto a dar uma abébia a estas falhas.
Do elenco, Sean Bean é o actor que mais se destaca. Ele está a tornar-se num daqueles actores especializados em filmes de época (ele já fez *Senhor dos Anéis*, cuja ambiência não podia ser mais medieval, e a série *Guerra dos Tronos*) e é muito competente quando veste a armadura. O actor destaca-se naturalmente neste filme e dá-nos mais um bom trabalho. Eddie Redmayne é convincente como monge, muito embora a sua maneira de agir, por vezes, tenha muito pouco de medieval. Carice van Houten é carismática e elegante, mas bonita demais para a Idade Média e o papel de liderança que lhe cabe na aldeia pedia uma figura mais velha, posto que os anciãos eram, nessa época recuada, a autoridade a seguir.
Tecnicamente, o filme tem vários pontos positivos, começando pela excelente cinematografia e trabalho de filmagem, o qual aproveita da melhor forma a luz natural, os dias nebulosos e as sombras do fogo para adensar o ambiente de tensão sobrenatural. Curiosamente, nada há neste filme que seja sobrenatural, se exceptuarmos a bruxa e o resistente paganismo germânico. A boa escolha dos locais de filmagem e a construção satisfatória dos cenários e figurinos ajudou.