**É um filme agradável, carrega uma mensagem anti-tecnológica pertinente, mas não é, nem de perto, um filme de terror.**
Antes de mais, permitam-me esclarecer uma coisa: filmes de terror têm o dever imperioso de nos assustar e incomodar. Tensão, ‘suspense’, medo e alguns sustos repentinos são algo que não deve faltar. É a essência do cinema de terror, certo? Então alguém pode explicar-me de onde surgiu a má ideia de fazer filmes de terror para adolescentes que nem têm idade para conduzir uma moto? Não me interpretem mal… o filme é bom e eu gostei, mas não posso considerá-lo um filme de terror. Não é capaz de assustar ninguém! Não tem sustos (nós somos capazes de os prever a quilómetros!), não tem tensão nem ‘suspense’. Como filme de terror, esqueçam. Como diz o povo, chove, mas não molha, entendem?
O roteiro começa com uma jovem menina que perde os pais num trágico acidente e vai viver com uma tia que trabalha numa grande corporação de brinquedos altamente tecnológicos. As coisas não são fáceis e nenhuma das duas está preparada para a situação. É nesse contexto que surge M3GAN, um protótipo de um brinquedo que é, basicamente, uma criança andróide que é capaz de aprender, de se aperfeiçoar, de ensinar e, basicamente, substituir os pais na tarefa cansativa de… serem pais. O problema é que, sendo uma máquina, não tem qualquer noção de bem ou mal, certo e errado, e isso parece ter sido um detalhe secundário na sua programação. Portanto, não há surpresa no facto de se transformar, rapidamente, numa criatura dissimulada e cínica que mata sem qualquer remorso.
O filme foi dirigido por Gerard Johnstone, um ilustre desconhecido. Quem está por trás do projecto é o produtor e argumentista James Wan, que conhecemos de “Saw” e “Conjuring 2”. A marca de Wan está em toda a parte. Teria sido melhor se tivesse sido ele a dirigir e o projecto tivesse evoluído para um filme mais sombrio, uma peça de terror para adultos. Allison Williams assegura bem a personagem principal, brindando-nos com mais um excelente trabalho. A actriz está a viver um momento feliz na vida profissional após ter brilhado em “Get Out” e parece estar a conseguir aproveitar bem as oportunidades. Amie Donald e Jenna Davis, por sua vez, dão corpo e voz (respectivamente) à boneca, complementando o trabalho com um boneco animatrónico criado para o efeito.
A boneca animatrónica não é novidade. O cinema usa este tipo de tecnologias há décadas, e o tubarão de Spielberg – um dos primeiros e mais infames exemplos – é prova disso. Todavia, os efeitos especiais e CGI estão de parabéns. O filme utiliza vários recursos visuais e digitais caros e de excelente efeito, complementando maravilhosamente o que foi feito em estúdio. O som (e particularmente os efeitos sonoros relacionados com a boneca) também merece um louvor, e a cinematografia, mesmo não trazendo novidades ou recursos inovadores, aproveita tudo isto da melhor forma. O filme tem bons figurinos e cenários convincentes, além de uma banda sonora muito boa, moderna e divertida. É na mesa de edição que as coisas correm mal: seja por culpa da duração excessiva, seja por querer atingir faixas etárias jovens, o filme foi mal editado e os cortes são grosseiros. Há até cenas do trailer que, por não estarem no corte final, dificultam a percepção da história: por exemplo, a cena onde Gemma manda M3EGAN proteger Cady, que aparece no trailer e foi cortada do filme, mas que ajudaria a entender porque a boneca passa a comportar-se daquela forma para proteger a sua jovem dona.
O único medo real que este filme transporta é a possibilidade credível de, a médio prazo, haver um qualquer brinquedo parecido com M3GAN. Os avanços na AI, na computação, na criação e “design” de robôs ou noutras tecnologias tornam-no plausível. Será que um dia teremos robôs e andróides que, pelas suas características, se considerarão vivos e, como tal, imortais e, por isso mesmo, superiores aos humanos que os criaram? Acho que ninguém quer ver isso. Por isso, o filme traz consigo uma mensagem de desconfiança na tecnologia, visível não só em M3GAN, mas também na dependência tecnológica de Cady. Não posso fazer outra coisa senão aplaudir: as gerações nascidas após o ano 2000 viram a sua infância dominada por telemóveis, iPads ou computadores, a ponto de desprezarem jogos e brinquedos convencionais e de se alhearem do convívio, normal e sadio, com outras crianças. Não estou a inventar, isto é um facto que todos podemos ver numa curta viagem a qualquer escola. E se há pais que agradecem a criação de dispositivos que mantenham os seus filhos ocupados, eu sou do grupo dos pais que encaram a tecnologia como algo que devia ser doseado de modo mais comedido, permitindo às crianças uma infância normal antes de as apresentarem ao mundo digital e tecnológico. Acho que há na vida um tempo para tudo, e a infância não deve ser passada a olhar para ecrãs e LCD’s.