**UM MUSICAL QUE A MAIORIA FOI VER SEM SABER QUE ERA UM MUSICAL.**
CRÍTICA QUE ESCREVI QUANDO REVI O FILME.
Victor Hugo publicou “Os Miseráveis” em 1862: é um romance icónico, que acompanha as mudanças político-sociais em França após a derrota de Napoleão sob a perspectiva dos mais pobres da sociedade, em particular Jean Valjean, um homem condenado injustamente e que quebrou a sua liberdade condicional. A trama foi alvo de várias adaptações para o teatro, o cinema e a Broadway, mas este filme dedica-se especificamente a adaptar o musical. A ideia surgiu em 1991, mas o produtor do musical, Cameron Mackintosh, só a alavancou em 2011, quando Eric Fellner e Tim Bevan compraram os direitos. A Universal Pictures, com quem trabalhavam, deu-lhes um orçamento de 61 milhões de dólares, chamou William Nicholson para escrever o argumento e Tom Hooper (“O Discurso do Rei”) para dirigir. O roteiro foi feito sobre dois eixos. O primeiro era a manutenção da musicalidade sem perder coerência narrativa: as cenas tiveram de ser reordenadas e novas canções foram feitas para preencher lacunas. O segundo eixo foi uma maior fidelidade ao livro, exigência do director que incentivou Nicholson a reintroduzir elementos descartados pelo musical.
Certas filmagens foram feitas no Sul de França, mas a maioria ocorreu no Reino Unido, nos estúdios Pinewood e em locais como Winchester, Chatam, Bath e Greenwich. Isto permitiu à produção aproveitar incentivos fiscais e cortar custos. Os bairros pobres e a barricada são cenários em estúdio, mas a cena inicial foi filmada numa doca-seca da época, na Base Naval de Portsmouth, com figurantes e actores a puxar um navio autêntico. Apostando num realismo visceral e boa recriação do período, fizeram mais de 4500 peças de vestuário com tecidos naturais (seda, lã, linho), desbotados e desgastados para parecerem autênticos, e as armas eram replicas de peças de museu da época. O filme reproduz bem a falta de salubridade e miséria dos subúrbios de Paris, a brutalidade do sistema penal e as barricadas da Rebelião de 1832. O que falha é o excesso de dramatismo: o filme é tão épico que faz esquecer que esta rebelião nunca teve os apoios necessários e foi facilmente debelada pela Guarda Nacional. Usando película 35 mm em vez de câmaras digitais, a cinematografia aproveita melhor a luz amarelada, simulando as velas, e a luz fria e filtros cinzas, recriando a luminosidade baça de uma cidade pobre e industrializada. Para cenas dinâmicas nas barricadas, usaram câmaras de mão e steadicams, levando o público para o meio da acção; nas canções a solo recorreram a close-ups com lentes de grande ângulo que aumentam o intimismo, realismo e dramatismo da cena.
Sendo um musical, as canções são parte essencial: a maioria foi tirada da peça da Broadway feita por Claude-Michel Schönberg, e funcionam lá como cá. Contrariando o hábito de acrescentar as canções na pós-produção, o director quis que o elenco cantasse na filmagem recorrendo a auriculares discretos onde a melodia era tocada. Isto permitiu aos actores modelarem o canto e a actuação de uma forma natural e emotiva. Arrisco dizer que a versão de Anne Hathaway de “I Dreamed a Dream” é das melhores versões da canção. Isso leva-me a falar do elenco e das suas capacidades de canto. Algumas escolhas não surpreendem: Hugh Jackman, por exemplo, é uma presença assídua na Broadway e dono de uma notável capacidade vocal. Outras apostas seguras incluem Samantha Barks, Amanda Seyfried, Aaron Tveit e Helena Bonham Carter, todos eles com prévia formação de canto e experiência em musicais.
Hugh Jackman e Anne Hathaway são os actores que mais fortemente nos comovem e impressionam graças a uma entrega extrema às suas personagens. Ambos perdem bastante peso para o filme, e ela chega até a cortar o cabelo em cena. Eles combinam muito bem a musicalidade da Broadway com a crítica social violenta que o livro original faz, e que tem eco na produção realista e na cinematografia enevoada e suja. Eddie Redmayne foi uma surpresa agradável, na medida em que canta melhor do que eu esperava. E se eu aceito bem o excesso de close-ups e o senso épico algo exagerado, também estou disposto a aceitar a performance vocal estranha de Russell Crowe, a quem falta a tessitura vocal necessária para acompanhar os colegas. Ele é bom para fazer esta personagem, mas num filme falado, sendo prejudicado pela falta de voz. O que me custou engolir foram as esquisitices de Sacha Baron Cohen: acho que foi um erro de casting resultante de uma leitura exagerada da personagem, caricatural em vez de engraçada. Um outro problema foi o marketing e a publicidade ao filme: a maioria das coisas que eu vi não deixavam claro que era um musical 100% cantado, e algum público (onde eu me incluo) só se apercebeu disso depois de comprar o bilhete do cinema!