**Um misto de erros gritantes e qualidades assinaláveis, num filme divertido o bastante para ver e esquecer logo depois.**
Eu não estou bem por dentro dos resultados de bilheteira conseguidos por “Kingsman”, mas consigo adivinhar que tenham sido bastante bons, garantindo a continuação do que já se antevia como uma franquia em potencial. E assim, cá estamos nós a olhar para o seu segundo filme, continuação lógica da história do primeiro.
Assistimos à tentativa de limar algumas arestas que mereceram crítica no primeiro filme: ao contrário do que aconteceu antes, e com excepção de algumas mortes mais bizarras, é uma aposta mais séria no segmento familiar, sem problemas quanto à violência gráfica e ao gore. Matthew Vaughn fez um trabalho satisfatório ao equilibrar acção e humor, e ao reforçar a dose de lutas, coreografadas e vistosas, e de “bugigangas” de espionagem, onde o departamento técnico e de efeitos teve terreno suficiente para brilhar. A banda sonora não é má, mantendo o essencial do primeiro filme, e a cinematografia e figurinos funcionam. A edição é muito bem feita, e apesar de ser um filme muito longo para o género, isso não constitui um problema realmente importante.
O roteiro é divertido e entretém bem o público, procurando manter a qualidade do trabalho anterior. Contudo, é forçado a cedências: a personagem de Colin Firth, que foi ovacionado pelo seu trabalho no primeiro filme, é ressuscitada, e o cenário do filme passa a ser, quase inteiramente, os EUA. De facto, a inclusão de uma organização de espionagem americana escondida numa destilaria de "bourbon whiskey" em pleno Kentucky, ainda que bem-vinda e bem enquadrada pelo roteiro, não deixa de ser apenas uma manobra para conquistar as bilheteiras do país. Com uma agravante: as personagens norte-americanas são clichés e comportam-se como simples cowboys, com mais agilidade e força física do que miolos e pensamento táctico. Tudo o que um espião menos necessitaria, na vida ou na ficção. Por fim, uma nota sobre a vilã: apesar dos esforços da actriz, de que falaremos, a personagem é má, foi mal pensada e mal desenvolvida, numa espécie de delírio kitsch revivalista sem nexo nem consciência.
Mais uma vez, Colin Firth faz um trabalho impecável e digno de louvores. Taron Egerton mostra-se mais maduro e mais resiliente, mais capaz de assegurar o protagonismo que lhe é exigido. Mark Strong também é excelente, em boa parte porque teve direito a melhor material neste filme, onde a personagem dele tem uma maior centralidade. Jeff Bridges é bom o bastante para o trabalho que tem em mãos. Infelizmente, há vários actores que não receberam personagens decentes nem material de qualidade, e que lutam contra isso sem grandes resultados práticos. É o caso de Julianne Moore, Channing Tatum e Halle Berry. São bons actores, fazem o que podem com o que lhes foi dado, mas é um esforço vão.