**Uma espécie de filme que não merece ser chamado de cinema.**
O “filme” que me traz hoje aqui é verdadeiramente mutante e, na total acepção do termo, bizarro: é uma espécie de produção cinematográfica brasileira que se debruça sobre a vida de uma espécie de pesquisador francês, cujos textos se tornaram na pedra angular de uma espécie de doutrina religioso-filosófica que nunca quis, ou conseguiu, assumir-se como uma religião, embora seja considerada como tal por muitos dos seus membros.
Quem nos apresenta esta coisa é Wagner de Assis, uma espécie de director de cinema de contornos obscuros que tem dedicado a sua vida e poucos talentos a fazer “filmes” acerca do Espiritismo, que defende e do qual provavelmente é membro. Eu, como ser humano pensante, não me sinto capaz de definir o que é, ou não é, o Espiritismo: se nem sequer os membros sabem dizer o que são, não serei eu, que nunca pus lá os pés, a pessoa certa para os ajudar nessa crise existencial. O que posso dizer é aquilo que este trabalho não é: um filme digno desse nome e merecedor do nosso tempo e dinheiro.
Amigo que me está lendo, eu tenho uma regra muito antiga e simples: desconfiar sempre de filmes patrocinados por instituições ou organizações religiosas. Quase nunca são bons e quase sempre são feitos com o objectivo de doutrinar, sub-repticiamente, públicos mais incautos. Adquiri esta regra nos tempos mais duros do meu ateísmo militante e mantive-a após a descoberta da fé e o abandono do nihilismo “nietzcheniano” em que vivia. Posso ser hoje um teísta fiel, mas não perdi o discernimento e espírito crítico, e não assino sem ler uma lei ou dogma, nem os da minha fé. E apesar de não o poder dizer com certeza, é quase certo que este “filme”, feito por membros do Espiritismo para louvar o homem que é seu fundador, mereceu sanção e certo financiamento da organização, que tem o Brasil como seu centro nevrálgico. Assim, não podia ser mais tendencioso: veja-se a forma como se ignora a maneira como Rivail enriqueceu à custas dos livros que fez e da polémica que alimentou, ou a forma como se aproveitou da ajuda de auto-intitulados médiuns para os escrever, ficando com os louros e opondo-se à sede de publicidade pessoal deles. Nós já vimos isto antes: quase todas as seitas religiosas actuais tiveram líderes parecidos. Alguns foram investigados pela justiça, mas, ainda assim, a fé continua um negócio apetecível.
As minhas objecções a este “filme” não se centram só na provável ligação a uma “igreja”, ou na sua forma hagiográfica. Também não tem nenhuma característica que o torne uma obra cinematográfica: os efeitos visuais são paupérrimos; nunca vi Paris, a cidade-luz, tão sombria, vazia de gente ou movimento. Os cenários e figurinos parecem ter sido montados com material emprestado pela Globo e soam tão falsos como em qualquer telenovela de época de Walcyr Carrasco. Os actores são desconhecidos sem talento, retirados de uma obscuridade onde mereciam ter ficado. Leonardo Medeiros e Sandra Corveloni, os únicos merecedores de atenção, ainda tentam representar, mas teriam feito melhor investindo os seus esforços numa produção digna. Neste “filme” falta tudo, a começar pelo orçamento. Talvez a “igreja” não tenha sido muito generosa no que interessa?
O cinema brasileiro, ao contrário do que dizem alguns brasileiros, tem os seus méritos e o seu valor. O Brasil tem grandes actores e pessoal competente, mas a falta de dinheiro e a barreira linguística impediu sempre os nossos amigos brasileiros de verem o seu esforço reconhecido internacionalmente. Fernanda Montenegro pode queixar-se disso, ainda que seja um dos poucos casos que mereceu a atenção internacional. Contudo, este trabalho de Wagner de Assis dificilmente se pode considerar cinema, muito menos uma obra com as qualidades que o cinema brasileiro precisa.