**Um documento histórico.**
António Lopes Ribeiro foi, pelo seu trabalho, um dos nomes mais notáveis do cinema português durante a sua era de ouro. Além de ser irmão de um excelente actor conhecido como "Ribeirinho", também se destacou como realizador. E se atingiu a imortalidade por via das comédias que fez, este filme é um dos seus trabalhos esquecidos.
O roteiro começa por nos apresentar Luís, um português que emigrou para os EUA, fixando-se em Boston. Rico, não valoriza a raiz portuguesa e pretende mesmo naturalizar-se como norte-americano até que o seu pai, um patriota português da velha guarda, o chama de novo para o levar num safari em África. Na sua viagem ao continente africano, Luís vai conhecer a Guiné Portuguesa, as ilhas de São Tomé e finalmente, Angola, onde vai encontrar o verdadeiro amor e, também, aprender a valorizar o seu país, a sua história, a sua grandeza colonial e o valor da missão civilizadora que está a empreender em África.
Creio que basta este resumo para entendermos porque este filme acabou praticamente votado ao esquecimento, para não dizer que foi deliberadamente oculto nos recônditos das prateleiras da Cinemateca. Com a revolta de 25 de Abril de 1974, o regime do Estado Novo chegou ao fim e a presença em África deixou de ser um motivo de orgulho para se tornar numa grande pedra no sapato de um país “a caminho do Socialismo”, como desejavam os comunistas e as forças vivas da Revolução. Se Portugal queria mesmo tornar-se numa república marxista-leninista, as malfadadas colónias tinham de desaparecer, por isso o melhor era sair rapidamente de lá, ainda que isso prejudicasse ou pusesse em perigo as vidas e bens de cidadãos portugueses que viviam por lá. Afinal de contas, quem os mandou ir para África? A partir daí, este filme tinha de deixar de existir, e isso quase se conseguiu. Resta a faixa de imagem, sem sons.
Passaram quase cinquenta anos. As memórias da descolonização, apressada e criminosa, são já algo que só quem o viveu na pele é que sabe, e as novas gerações habituaram-se a chamar “Dia da Liberdade” ao dia da revolta armada dos capitães inflamados pelo ideário soviético. Há países europeus que se envergonham de terem sido impérios coloniais, e essa moda irá, mais tarde ou mais cedo, chegar a Portugal. Mas enquanto não temos vergonha de nós mesmos (não mais do que a que já temos habitualmente), espero que saibamos apreciar este filme por aquilo que ele é.
E o que é que ele é? É um manifesto político, propagandístico, em prol da presença de Portugal numa África ainda toda europeia. Em 1940 ainda ninguém falava em descolonizar e os arroubos patrióticos estavam na moda, impelidos por políticas estatais fascizantes importadas de Itália e pelas comemorações do “Mundo Português”, que nesse ano se realizaram. É um filme que não é de entretenimento, mas de doutrinação política de massas, feito num tempo em que Portugal era, de facto, um país que não queria ser pequeno. Hoje, é um documento histórico que merece ser valorizado, enquadrado no período em que foi feito, analisado à luz da mentalidade de um país que era, e que pensava, de modo muito diferente do Portugal que conhecemos.