**UMA OBRA ATEMPORAL, QUE TEM TIDO DIFICULDADE A AGRADAR AOS IMPACIENTES DO SÉCULO XXI.**
CRÍTICA QUE ESCREVI APÓS REVER ESTE FILME.
Bóris Pasternak foi um escritor que enfrentou toda a dureza da censura soviética. Ele foi incapaz de se adaptar à rigidez estalinista, que condenava a poesia como algo burguês, e fez publicar em Itália “Doutor Jivago”, em 1957, apesar dos esforços repressivos dos soviéticos. O livro espalhou-se pela Europa e foi logo traduzido em várias línguas. Quem nunca o leu, deveria: é um romance delicioso que acompanha as personagens da etapa final do Império às purgas estalinistas. Através de cada personagem, Pasternak passou ao papel muitas cenas que realmente viu e expressou várias considerações, como a esperança que sentiu com a Revolução, o horror às crueldades cometidas na Guerra Civil Russa e decepção total perante a brutalidade de um regime que pôs o Estado acima do indivíduo e anulou qualquer liberdade de expressão ou criação artística. O livro tem muito de autobiográfico, e é fácil ver as semelhanças entre o criador e Jivago, a criação. Este livro foi um best-seller e valeu a Pasternak o Prémio Nobel da Literatura, que foi obrigado a recusar após ameaças da polícia soviética.
Em 1962, o produtor italiano Carlo Ponti comprou os direitos do livro e obteve um financiamento de 6 milhões de dólares da MGM, que então apostava alto em filmes épicos de forte impacto. O estúdio indicou David Lean para director, sabendo que ele queria fazer um épico romântico e intimista; também nomeou Robert Bolt para a escrita do argumento, que nos dá uma trama dinâmica, convincente e, em geral, próxima o bastante do livro original, que é mais complexo e matizado. Entretanto, as autoridades russas tentavam travar a produção, que encontrou abrigo na Espanha de Francisco Franco, nos Estúdios CEA em Madrid, onde foi erguida uma grande cidade cenográfica que incluía uma linha de bonde funcional, contando com o Inverno para as cenas de neve. Porém, foi dos Invernos mais quentes do século XX e as cenas tiveram de ser filmadas no Canadá, na Finlândia e em estúdio usando neve falsa, como na famosa cena da casa congelada. Algumas cenas foram filmadas em Sória e na barragem de Aldeiadávila, em solo português, mas merece destaque a cena dos protestos, que contou com centenas de figurantes espanhóis: cansados da ditadura, cantaram a “Internacional” com tal força que a Polícia apareceu, agitada com a cantoria revolucionária. Porém, David Lean era perfeccionista, e ia repetindo takes até ficar satisfeito. Isto levou a produção a estender-se por dois anos e custar o dobro do previsto.
Não obstante, o resultado foi altamente compensador: este é dos filmes mais bem-sucedidos de sempre e um dos últimos êxitos da MGM antes da sua atribulada venda e desagregação, consagrando David Lean como um cineasta com olho clínico para uma cinematografia arrebatadora, com paisagens que se impõem e falam sem uma palavra, com uma beleza visual que beira a pintura. Some-se a isto um detalhismo metódico, uma atenção a detalhes técnicos e cenográficos que deixaria qualquer director actual esgotado. Maurice Jarre, que já se destacara dantes, até mesmo em filmes do mesmo director, deixa-nos uma obra de antologia: merece destaque o “Tema de Lara”, uma melodia usada nos créditos iniciais e que escreveu a pensar na sua mulher.
Apesar das suas qualidades, o filme tem sido ocasionalmente mal compreendido por um público cada vez mais avesso a filmes lentos e reflexivos. O filme não é só sobre um poeta fictício; é, ele mesmo, poesia sensorial e, por isso, desenvolve-se por mais de três horas. Isso não é defeito, é assim e quem não aguentar pode ver outra coisa. O problema não é o filme, é a impaciência de um público incapaz de se sentar algumas horas sem as mãos no smartphone, disposto a apreciar o que tem diante de si. É por isso que Omar Sharif actua de forma tão aparentemente lamechas! O actor, que ficou muito satisfeito por dar vida a esta personagem e atingiu, com este filme, uma merecida aclamação, procura dar-nos a visão de um homem complexo, sofrido e sonhador que não perde a sua sensibilidade e gentileza apesar das brutalidades que vivencia e observa, e que continua a ser capaz de amar, amando duas mulheres diferentes de maneiras distintas!
Este não é um filme sobre a Revolução ou a Guerra Civil Russa. Os factos históricos são só o pano de fundo das personagens, afectando as suas decisões sem que estas participem neles. Não espero uma reconstituição de período impecável, espero realismo e verosimilhança, e o filme oferece-nos isso de forma razoável. Não é um filme documental, é uma ficção enviesada e crítica feita sobre um livro denso, escrito sem liberdade por um escritor que sabia que podia pagar caras as suas palavras. Não seria nunca possível adaptar um livro assim sem fazer concessões, e eu entendo isso. Também não me parece que procure romantizar a Rússia. Não é ela que é romantizada, a história é que é romântica, tocando em temas atemporais que todos entendemos.