**Uma obra colossal de CGI incrível, em que o roteiro se perde bastante e os actores fazem um bom trabalho em personagens que já conhecem bem.**
Ao contrário do meu costume, vi este filme directamente após o primeiro. Não foi vontade minha, foi o canal de TV que decidiu exibi-los em sequência. E ainda bem: as coisas são mais claras e compreensíveis se tivermos visto previamente o filme inicial, que explica a origem da personagem e o seu percurso. Há alguns aspectos e detalhes do roteiro que não entendi, mas como a Marvel costuma encadear os seus filmes, como se se tratassem dos fios de uma tapeçaria, eu acredito que aquilo que eu não entendi estará relacionado com a quantidade de filmes Marvel que eu ainda não tive oportunidade e pachorra para ver.
O filme é dirigido por Sam Raimi, o que me deixou imediatamente na expectativa: afinal, é um director verdadeiramente criativo e inteligente, que já nos deu trabalhos dignos de louvor, embora os filmes de heróis não tenham corrido bem ao director no passado. Tanto quanto sei, a produção foi extremamente atribulada e, como se sabe, fortemente afectada pela pandemia recente. Raimi aproveitou, reescreveu boa parte do roteiro e reviu tudo, a fim de criar uma história bizarra, algo assustadora (ele começou como director de filmes de terror baratos, lembremo-nos), sobre o multiverso, um conceito que tem sido explorado muito no cinema desta década.
Como seria de esperar, o filme foi um sucesso brutal, tanto ao nível das bilheteiras quanto ao nível da crítica especializada, tendo registado a quarta melhor bilheteira de 2022, e foi sacramentalmente ignorado pelos Óscares, até nas categorias visuais e técnicas onde, na minha opinião, poderia ter tido boas hipóteses de arrecadar um prémio. De facto, o filme é um espectáculo visual de proporções supremas, aproveitando ao máximo a enormidade de possibilidades do multiverso para uma experiência visual que vale a pena por si só. Se o primeiro filme já tinha sido colossal a nível de efeitos e CGI, este filme supera-o quase em toda a extensão. Os cenários, figurinos, adereços, maquilhagem, tudo foi pensado em mínimos detalhes e faz bom uso do orçamento gigante que a Marvel disponibilizou. E o trabalho dos duplos e coreógrafos foi excelente nas cenas de acção e lutas.
O roteiro junta duas personagens do universo Marvel na mesma história: o já conhecido Dr. Estranho e a Feiticeira Escarlate, Wanda Maximoff. Antes deste filme, e do que veio antes, eu não as conhecia, pois não sou muito apreciador de banda desenhada, embora eu reconheça o trabalho excepcional da Marvel neste campo ao longo de várias décadas. Há ainda uma terceira personagem que entra aqui, America Chavez, uma jovem latina que, sinceramente, deve ser alguma espécie de personagem de terceira linha, mas que assume uma relevância considerável para a trama. Em geral, o roteiro parece-me mais fraco que o do primeiro filme, e isso pode ser consequência directa da confusão imensa que foi todo o processo de concepção e produção do filme, entre uma pandemia, desistências e toda a sorte de contratempos.
Benedict Cumberbatch regressa à sua personagem e faz um trabalho bem feito, embora o actor pareça estar a trabalhar com material um pouco menos interessante e a entrar numa zona de conforto que torna as coisas mais monótonas. Elizabeth Olsen também já estava perfeitamente a vontade com a personagem dela, posto que já a tinha feito noutros filmes do universo Marvel que eu, tanto quanto me recordo, ainda não vi. Ela é bastante boa no que faz e o trabalho da actriz é convincente. Há ainda vários outros actores do primeiro filme que retornam para um novo trabalho: Rachel McAdams e Chiwetel Ejiofor têm um trabalho facilitado, mas parece-me que o filme não os aproveita particularmente. Muito melhor sorte teve Benedict Wong, num trabalho impecável, e Xochitl Gomez, que fez um aproveitamento positivo da oportunidade, ainda que sem merecer um holofote.