**Mais um excelente trabalho do cinema espanhol para mostrar ao resto da Europa como é que se faz cinema de verdade sem orçamentos milionários.**
Como português orgulhoso, é com um pouquinho de inveja que tenho visto o excelente trabalho que tem sido desenvolvido no cinema espanhol. Com inveja e, também, com um bloco de notas: Espanha é um excelente exemplo do que precisa ser o cinema europeu, e de que é perfeitamente possível fazer filmes grandiosos sem o aparato multimilionário de Hollywood. Infelizmente, em Portugal, além da crónica falta de fundos e de apoios, sejam públicos ou particulares, os cineastas continuam a pensar pequeno, a dedicar o seu tempo e o seu talento a projectos que se revelam excessivamente intelectuais para merecerem a atenção do público ou, em contraciclo, tão estúpidos que insultam a inteligência de todo o espectador que tenha mais que o ensino mínimo obrigatório.
Decidi ver este filme sem saber que era espanhol, mas convencido pela sinopse, com uma história dramática sobre uma prostituta de luxo e um seu cliente rico, que fica obcecado por ela sem saber nada acerca dela ou do seu passado, e escondendo ele mesmo todos os seus segredos e mentiras. Quem é, afinal, Diana? Valia a pena descobrir, e foi isso mesmo que eu fiz! Fico feliz por ter dedicado o meu tempo a este trabalho: é um filme simples e barato de fazer, que poderia perfeitamente ser produto de um grupo de jovens estudantes de cinema, mas que nos entrega uma obra perfeitamente bem acabada e conseguida com grande empenho de todos os envolvidos.
Este foi, efectivamente, o primeiro filme longa-metragem do director Alejo Moreno, que poderá vir a ser uma promessa do cinema espanhol se continuar a trabalhar a este nível. Ele trabalhou muito bem o roteiro e a história contada, de maneira que o suspense se vai construindo gradualmente, à medida que a prostituta se envolve e entretém aquele homem e que ambos começam a criar uma ligação erótica, pontualmente interrompida por certos momentos de tensão em que as personagens parecem estar a apalpar terreno desconhecido e a perceber como se relacionar. Não é uma coisa fluida, eles não são um casal, a situação tem muito de constrangedor para ambos, e o filme explora bastante isso para começar a convencer-nos de que algo ali não está bem e que alguma coisa vai correr mal. Os diálogos são bastante brutos e chulos, mas eu achei que as personagens pediam isso, e que Moreno compreendeu a necessidade de realismo e de impacto de algumas frases. Os cenários e a escolha de alguns adereços (as pinturas, a decoração retro barata do quarto…) falam sem dizerem uma única palavra. Ah, e claro, se é um filme sobre prostituição, vamos ter cenas de sexo e de erotismo, com direito a nudez não muito explícita: mesmo explorando algo tão cru como o sexo, a elegância e o bom-gosto mantiveram-se até ao fim.
Entre o elenco, reduzido ao mínimo de elementos, apenas dois nomes merecem a nossa atenção: Jorge Roldan deu-nos uma interpretação notável de um homem aparentemente muito rico, mas com profundas perturbações psicológicas e uma vida pessoal inexistente, na medida em que não tem família próxima nem companheira, nem filhos e quase não diz uma palavra sobre si que não seja acerca de trabalho. Ele contracena maravilhosamente com Ana Rujas, uma esbelta e sexy jovem promessa do cinema, a quem eu acredito que não irão faltar propostas de trabalho depois de um filme assim. Ela é sensual como uma gata no cio sem nunca deixar de aparentar perigo, sem nunca parecer vulnerável ou frágil, muito pelo contrário. Uma autêntica “femme fatalle” que merece um louvor pelo que fez neste filme.