**Um ensaio sobre a moralidade, e como vivemos o que apregoamos como sendo certo e errado.**
Não sou um admirador de Woody Allen… mas também não sou um dos muitos que lhe dedicam ódio figadal. Para mim, é apenas mais um cineasta, e um daqueles que costuma ter mais sucesso no circuito dos festivais de cinema e no mercado comercial europeu do que, propriamente, nos EUA. Então, quando vejo um filme dele, nunca tenho realmente expectativas muito altas, embora eu saiba, ou pressinta, que o ‘jazz’ ligeiro, as piadas sem graça e a obsessão por temas eróticos são temas que vão aparecer, pois são característicos da filmografia dele. Por mim, tudo bem.
A trama centra-se em Judah Rosenthal, um advogado de meia-idade, que cometeu o erro de arranjar uma amante e lhe fazer promessas. Quando a ilusão se desfaz, ela decide fazer um ultimato: ou o causídico pede o divórcio, ou ela mesma conta toda a verdade à legítima e enganada esposa. Entre a espada e a parede, Judah, que ainda por cima é judeu e posa como um homem íntegro perante a sua comunidade, procura os conselhos do seu irmão, Jack, que lhe arranja um “solucionador de problemas” (entenda-se, um criminoso que se dispõe a matar a amante, mediante o prévio adiantamento de um grosso maço de notas). Ao mesmo tempo que esta trama se desenrola, o filme cria outra, centrada em Cliff Stern, um produtor de documentários, casado, que está a trabalhar num projecto de que não gosta e inicia um caso amoroso com uma das suas colegas de trabalho.
Como podemos ver, o filme, considerado um dos melhores do director, aborda temas que giram em torno da moral, da maneira como vivemos os valores que apregoamos, da fé e da forma como a religiosidade é vivida por nós. Ambas as tramas são sobre o adultério e isso pode sugerir que o cineasta quer fazer uma espécie de ensaio sobre a moralidade no casamento, ou sobre a falta dela. Seja como for, o filme tem bastante de filosófico, se nós quisermos abordá-lo por essa perspectiva. A maior crítica que lhe faço é ter duas histórias aparentemente distintas e sem ligação entre si. Acredito que teria sido mais produtivo pôr os dois protagonistas em frente um do outro, e reconhecendo os erros e as virtudes um do outro, mas isso é apenas a maneira como eu penso que o filme podia ser melhorado. Sei que é um filme de Woody Allen, e o director tem o costume de inserir nos seus filmes os mesmos elementos de assinatura: o ‘jazz’, as festas sociais e jantares de amigos, mas acho que o filme teria sido mais interessante com menos humor seco e sem piada.
Como quase sempre acontece, Woody Allen dirige, escreve o argumento e ainda assegura um dos papéis principais. Há quem goste dele e quem o odeie, mas não lhe podemos negar versatilidade e capacidade, ainda que possamos ter ideias e opiniões diferentes das dele, o que muitas vezes é o meu caso. Martin Landau é um veterano do cinema que já brilhou em filmes como “The Greatest Story Ever Told” e “North by Northwest”. Neste filme, o actor mostra continuar perfeitamente activo, conseguindo expressar bem a complexidade das emoções e as crises de consciência da sua personagem. Alan Alda surpreende-nos ao interpretar magistralmente um homem profundamente vaidoso e egocêntrico, que sempre nos soa antipático, mas não ao ponto de lhe desejarmos um castigo. Por sua vez, Anjelica Huston e Mia Farrow fazem ambas excelentes actuações, conseguindo convencer-nos das dúvidas e angústias que as suas personagens vão experimentando. Claire Bloom e Jerry Orbach dão um apoio necessário e bem-vindo.