**Um grande filme que merece ser revisto e revisitado nos dias actuais.**
Tenho dito muitas vezes que um filme precisa sempre de uma boa história, e este filme é um exemplo disso mesmo. A força da história, a forma como ela capta a nossa atenção e a nossa curiosidade, a maneira como as personagens foram criadas, desenvolvidas, e são capazes de conquistar a nossa simpatia, tudo se conjuga com um excelente trabalho dos actores e da direcção. Este filme parece-me um pouco esquecido nos dias actuais, mas é merecedor de uma repescagem pela sua enorme qualidade.
De facto, toda a história gira em torno da confiança nos outros e em nós mesmos. Maria, uma jovem adolescente que parece apostada em sobressair de modo extravagante, acaba de engravidar de um namorado que realmente não gosta dela e só se preocupa com ele e com as suas prioridades pessoais. Abandonada pelo namorado, provoca a morte ao pai, sem querer, após uma briga dura entre os dois, e acaba por se refugiar na amizade com o problemático Matthew, outro adolescente, muito maduro e formal para a sua idade, e detentor de uma cultura acima da média, que já teve vários problemas com a justiça por não se conformar com o mundo ao seu redor, onde a mediania reina e a TV exerce uma influência excessiva sobre as pessoas. De alguma forma, eles acabam por se entender e ver o lado bom um do outro.
O filme não é uma comédia, não para mim. Há qualquer coisa de dramático no filme e na maneira como as coisas se desenrolam, com as duas personagens centrais a terem de passar por um processo catártico para se tornarem melhores e poderem, por fim, amar e ser amadas. A questão da fragmentação e desestruturação da família também está bem presente ao longo do filme, onde vemos casamentos fracassados, derrotados pela falta de amor e entendimento, pela monotonia dos dias e pela inconstância de sentimentos.
A direcção de Hal Hartley faz um excelente trabalho com pouco (eu não sei, mas fiquei com a sensação que o filme tinha um orçamento limitadíssimo). A cinematografia é boa e os cenários são extraordinariamente credíveis. Todavia, isto são só detalhes quando se observa o extraordinário trabalho dos actores. Martin Donovan, conhecido de todos nós, está em excelente forma aqui e deixa um registo notável do seu talento. Ao seu lado está a jovem e talentosa Adrienne Shelly, que nos foi roubada cedo demais e de modo brutal, como sabemos. A actriz é carismática e consegue dar-nos o grande filme da sua carreira. A dar-lhes força temos boas participações de Rebecca Nelson e John MacKay.