**A OUSADIA CRIATIVA DE ORSON WELLES NUM FILME QUE SE ATREVE A EXPERIMENTAR COISAS DIFERENTES.**
CRÍTICA QUE ESCREVI APÓS REVER O FILME.
Se “Gone With the Wind” se deve à visão férrea de David O. Selznick, este filme é fruto do engenho de Orson Welles, alguém que nem sequer queria fazer cinema. Ele fizera uma carreira sólida como encenador no teatro e na Broadway, mas ficou mais famoso ao dirigir e narrar a transmissão de rádio de “A Guerra dos Mundos”, a 30 de Outubro de 1938, cujo realismo causou pânico nos ouvintes. Welles continuou no teatro e foi recusando as propostas de Hollywood, mas acumulou prejuízos devido ao fracasso de duas peças. Para os pagar aceitou, em 1939, a oferta da RKO Radio Pictures, a mais generosa já feita por um estúdio a alguém de fora do cinema: deveria dirigir, produzir e escrever dois filmes até 500 mil dólares, mantendo o controlo criativo, a escolha do elenco e equipa, o privilégio de corte final e o direito a 20% dos lucros após o estúdio recuperar o investimento. Hollywood riu de George J. Schaefer, o patrão da RKO, por dar tanto a um novato de 24 anos numa altura em que a Europa acabava de se envolver numa guerra que tinha tudo para se alastrar.
Welles pensou numa história sobre a vida de um homem poderoso vista por várias personagens, explorando a ideia de que ninguém é entendido quando visto de um só ângulo, e deu as suas notas a Herman J. Mankiewicz, contractado para escrever o argumento. O contracto negava-lhe o direito a crédito como argumentista, mas ele aceitou à mesma, isolado num rancho californiano para curar o alcoolismo e as feridas de um acidente, e criou uma história inspirada em William Randolph Hearst, um manipulador manda-chuva da imprensa. Mankiewicz fora a festas no Castelo Hearst até ser expulso de uma delas devido a uma embaraçosa bebedeira. Sentindo-se ridicularizado, passou a odiá-lo e vingou-se: Kane, como Hearst, é um multimilionário da mídia que vive num castelo excessivo e manipula as notícias segundo as conveniências. A gota de água foi a palavra «rosebud» usada no filme, que Hearst usava carinhosamente para as partes íntimas de Marion Davies, sua companheira. Davies era uma actriz cómica talentosa por quem ele se apaixonou, e que era conhecida pela sua afabilidade, boa índole e generosidade. No filme, é trocada por Susan, uma cantora lírica falhada que depende da protecção do marido rico. A caricatura é tão dura e injusta que, anos depois, Welles lamentou deixá-la passar. De facto, o texto final coube a Welles, que compôs o texto de Mankiewicz a seu gosto, cortando material, adicionando cenas e remontando tudo. Meses depois, e sem ter direito, Mankiewicz exigiu crédito pelo argumento e a RKO chegou a um acordo dividindo o crédito pelos dois.
Welles explorou todas as potencialidades narrativas, técnicas e visuais do seu tempo durante as filmagens nos dois estúdios RKO de Hollywood e Culver City. Ele dirige com criatividade e curiosidade, passando horas com Gregg Toland, o cinegrafista, a experimentar ângulos e enquadramentos de câmara. Uma das inovações foi o foco profundo, que usa luz forte e lentes grande-angulares para manter focados ao mesmo tempo objectos em primeiro plano, plano médio e fundo. Também filmaram cenas de Kane em ângulo baixo após rebentarem o piso do estúdio para pôr a câmara mais baixa. E como os estúdios não tinham tecto, puseram lonas para ocultar microfones e forçar a iluminação lateral e filtrada, mais dramática. Para criar a imponência de Xanadu, usaram maquetes e pinturas mate que combinaram com efeitos de som e uma disposição criativa de adereços e móveis criando a ilusão de amplitude num cenário limitado. Sendo um homem da rádio, tinha sensibilidade para usar o som: contrariando o habitual, sobrepôs os diálogos colocando as personagens a falar em cima das outras e a interromperem-se, dando mais realismo às cenas. Também usou truques sonoros para criar ilusões de espaço e usou a banda sonora e diálogos para ligar cenas no mesmo cenário, mas separadas por vários anos, como na cena do pequeno-almoço. Neste filme, o som não é um acessório, é tão importante quanto a imagem, sendo o silêncio explorado para revelar a solidão de Kane e os ecos para revelar a espacialidade profunda da sua mansão opressivamente imponente. Bernard Herrmann, na sua estreia como compositor de bandas-sonoras de cinema, deixa uma marca potente no filme ao dar-nos uma sonoridade profunda e impactante.
Podendo escolher o elenco, Welles trouxe os actores do Mercury Theatre, a sua companhia de teatro, pois já o conheciam, estavam habituados ao seu estilo de direcção e mantinham-se coesos como grupo, apesar de quase nenhum ter experiência no cinema. Merecem destaque Joseph Cotten, que cria uma química notável com Welles, Dorothy Comingore, numa boa performance trágica, Ruth Warrick e Agnes Moorehead. E o que dizer da interpretação do próprio Welles? A verdade é que ele é talentoso e carismático, a personagem ganha com isso e o público recebe um exercício dramático competente. No entanto, o que se destaca é a forma como ele envelhece diante dos nossos olhos, seja através da modulação da voz e dos movimentos, seja através do uso de próteses de borracha e de outras técnicas de maquilhagem. Ele consegue transformar Kane num homem que, a pouco e pouco, se perde de si mesmo para só se reencontrar no momento da morte.
Este filme tem sido recorrentemente apontado pela crítica como o melhor filme já feito. É uma honraria quase consensual entre cinéfilos, e que a votação da revista britânica Sight & Sound, feita todas as décadas, ajudou a consagrar, pondo este filme em primeiro lugar entre 1962 e 2002. Para o público comum, que apenas vê os filmes sem estar a pensar muito neles, isso parece inexplicável: de facto, não é o tipo de filme que fica marcado na nossa memória. O elenco, incluindo Welles, faz um bom trabalho, mas nada de absolutamente colossal ou memorável, e a história contada, apesar de ser um bom estudo de personagem, é bastante banal. O que torna o filme especial e tão importante é tudo o resto! É o seu carácter quase experimental e profundamente artístico! Welles conseguiu algo inédito para um novato: o apoio incondicional de um grande estúdio para fazer o filme que queria, como queria, sem intromissões e tendo por único limite o orçamento. Ele podia ser ousado, colocar a arte acima das demais preocupações. Welles nunca se importou com o que o público queria ver, nem com a reacção ao seu filme, tanto que o público estranhou e o filme fracassou miseravelmente!
Para sermos honestos, temos de atribuir boa parte do fracasso a William Randolph Hearst. Ele vingou-se com dureza, proibindo as dezenas de jornais e revistas que detinha de fazerem a menor menção ao filme, a Welles ou a Mankiewicz, e passou os anos seguintes a vilipendiá-los e atacá-los na imprensa. Numa época em que a publicidade do cinema dependia dos jornais, isto foi um golpe duro para o filme! Receando que a ira de Hearst se espalhasse a toda a indústria de Hollywood, vários estúdios quiseram comprar o filme à RKO para darem fim ao negativo antes do lançamento. A MGM, de Louis B. Mayer, chegou a oferecer 800 mil dólares! Além disso, quando o filme finalmente foi lançado, Hearst boicotou o filme ameaçando processar todos os cinemas que o exibissem, o que acobardou muitos cinemas. A viragem só aconteceu nos anos 50, quando os franceses da “Cahiers du Cinéma” redescobriram o filme e lhe gabaram as virtudes técnicas que temos estado a elencar. O filme pode parecer banal, mas é profundamente metalinguístico, uma aula condensada de técnica, que nos ensina como se faz cinema e que é objecto de estudo de todos os aprendizes de cinema! A sua trama pode até parecer banal, mas não é uma premissa para fazer um filme: Welles desconstrói o sonho americano, despe um milionário de toda a sua imponência dissecando-o gradualmente para nos mostrar o seu vazio existencial mais profundo. No fim, o seu legado é um castelo massivo e um somatório contraditório de depoimentos a que fica sempre a faltar uma peça central, que é o próprio individuo e a sua alma.
Em anos recentes, o consenso em torno do filme tem sido rompido por uma mudança dos critérios de avaliação que valorizam mais aspectos que, dantes, passavam ao lado. Eu, pessoalmente, acho que é algo muito subjectivo, e que a voz do público geral vale tanto quanto a de um crítico doutorado. Cada pessoa tem o seu próprio julgamento de qual é filme de todos os tempos, ou pelo menos o melhor filme que já viu num cinema. E está tudo bem! Não é por isso que este filme ou qualquer outro irá perder o seu mérito.