Como estou a aprender espanhol para viver e trabalhar em Espanha, tenho tentado explorar filmes menos conhecidos e acabei por descobrir Cachorro. A julgar em torno da premissa e de algumas imagens que encontrei, pensei que fosse algo mais próximo de Ideal Home, ou seja: uma comédia dramática LGBT leve e reconfortante. Mas a verdade é que o filme é praticamente o oposto disso. E talvez tenha sido precisamente esse choque de expectativas que dificultou a minha ligação à obra.
Cachorro é um drama pesado, melancólico e frio. Não há praticamente momentos de humor e o filme mergulha constantemente numa atmosfera um pouco mais cinzenta e solitária. A narrativa acompanha um homem homossexual que acaba responsável por cuidar do sobrinho a pedido da sua irmã.
Durante grande parte do filme fiquei sem perceber muito bem qual era o verdadeiro objetivo da história: se queria mostrar que um homem gay é perfeitamente capaz de cuidar de uma criança e quebrar preconceitos ligados à adoção e parentalidade. Ou se queria fazer um retrato mais underground e sombrio da solidão dentro de um homem gay naquela época. Ou se simplesmente tentou misturar demasiadas ideias sem alcançar um rumo exato.
E talvez seja precisamente aí que o filme me perdeu, pois esperava encontrar uma obra mais emocional e até mais positiva sobre afeto, responsabilidade e família. Mas senti quase o contrário, pois em vez de quebrar certos preconceitos, em alguns momentos, parece quase alimentá-los involuntariamente.
É pena, porque havia ali potencial para um trabalho muito mais marcante. O filme podia tocar exatamente nos mesmos temas, mas através de uma perspetiva mais humana e esperançosa. Em vez disso, acaba por cair em vários clichés associados a muitos filmes LGBT do início dos anos 2000: o protagonista gay solitário, envolvido em drogas, com HIV, aparentemente perdido a nível emocional e sem grande esperança afetiva.
Aliás, perdoem-me se me encontro a ser um pouco woke, mas achei terríveis, as cenas em que as personagens discutem a orientação sexual da criança e fazem piadas com isso. É algo que pode levar para uma conotação negativa e gerar discursos de ódio sobre pessoas homossexuais.
Dito isto, não acho que seja um mau filme. O elenco é competente e nota-se alguma sinceridade na forma como tenta abordar certos temas. Além disso, gostei de algumas músicas da banda sonora e ADOREI a estética do início dos anos 2000 na península ibérica, transportando-me automáticamente para a minha infância. Só que simplesmente não foi nada daquilo que eu estava à espera e fui Incapaz de criar verdadeira ligação emocional com a narrativa.
Portanto, honestamente, continuo a recomendar muito mais Ideal Home, que aborda alguns temas semelhantes, mas de uma forma muito mais bonita, humana e envolvente.