**Poderia ser uma excelente peça de entretenimento sobre um ícone cultural do século XX e XXI, mas tornou-se um esquecível filme-manifesto woke contra o “patriarcado”.**
Apesar de eu ser um homem, também para mim a boneca Barbie tem um significado: eu vi imensas nas mãos de amiguinhas e colegas de escola, e a boneca tinha direito a metade da prateleira dos brinquedos no supermercado. Portanto, mesmo sem a ter tido, eu conheci as diferentes vidas e profissões da Barbie, as numerosas casas de sonho, carros, iates ou versões temáticas, pelo menos durante o tempo limitado da minha infância. Não marcou a minha vida, mas faz parte das minhas memórias de infância. A boneca, como se sabe, foi criada pela fundadora da Mattel para dar às meninas algo diferente das convencionais bonecas infantis com que brincavam às mães e donas de casa. Ela sabia que aquela nova geração não estava mais confinada ao lar e à maternidade, e quis criar algo que espelhasse a enorme gama de oportunidades de vida e de carreira que se abriam. No entanto, o visual estilizado da boneca ajudou a cristalizar um ideal de beleza e a reforçar estereótipos já existentes sobre a beleza feminina: seios volumosos, ancas largas, pele branca, cabelos loiros, pernas longas e uso permanente de saltos altos (até anos mais recentes, mesmo as versões de piscina e praia tinham aquele modelo de pé). Assim, a boneca tornou-se ícone da cultura pop, mas colidiu com os valores e crenças dos “millenial’s”, que cresceram a acreditar que não faz mal ser mãe e trabalhar.
O sonho da Mattel, de ter um filme acerca da sua boneca-mascote, demorou duas décadas. Tanto que passou por dois estúdios e numerosas actrizes foram pensadas para papel-título antes de a Warner Bros. Pictures resolver alavancá-lo e chamar Margot Robbie, a actriz e produtora que se encantou pela ideia. Claro, além de todos os usuais conflitos de agenda e interesse de estúdios, o projecto sofreu com a paralisação da indústria cinematográfica na pandemia de COVID-19. O texto brinca com o universo Barbie, recorda modelos e acessórios que não estão mais disponíveis excepto para coleccionadores e reflecte sobre o impacto social que a boneca teve e tem, celebrando-a como um ícone cultural.
A história começa numa terra mágica que a Mattel parece ter feito para as suas bonecas, e onde Barbies dominam e os Kens vivem na sua sombra delas, espelhando um retracto exagerado da nossa sociedade. Francamente, evoluímos muito poucas décadas e podemos ser optimistas: se a nossa sociedade fosse assim, Gerwig nunca teria sido directora nem Margot Robbie teria sido actriz profissional, recebendo o cheque chorudo que lhe rendeu este trabalho. Gerwig faz um bom trabalho na direcção, mas é menos hábil na escrita do argumento, que se perde totalmente a partir do último terço e tem um final decepcionante. Num forte apelo ao público “woke”, ávido por causas sociais que encham manchetes, seja a Palestina ou a violência racial ou qualquer outra, o filme fala demasiado no patriarcado e nos perigos do patriarcado, inquinando o filme com assuntos que não tinham de estar lá obrigatoriamente. Margot Robbie está feliz e contente a desempenhar o papel para o qual parece ter sido geneticamente concebida desde nascimento. Ariana Greenblatt e America Ferrera dão um apoio bem-vindo e bem-humorado, assim como Issa Rae, Emma Mackey e Kate McKinnon. Aproveitando o hype que se sabia que o filme ia ter, Dua Lipa aparece brevemente, mas não faz nada além de aparecer e Ryan Gosling, que é um bom actor, dá uma interpretação fortemente exagerada, pecando constantemente pelo excesso num dos piores papéis da sua carreira, pelo menos para mim.
O grande problema do filme, e aquilo que o torna esquecível, é ser um filme-manifesto woke dirigido às neo-feministas, que deixam crescer pêlos nos sovacos e tiram fotos nuas para falar em empoderamento. Querem por força destruir o patriarcado sem entenderem que os humanos são patriarcais desde as cavernas e que não adianta realmente combater isso. Seria o mesmo que tentar ensinar um chimpanzé a recitar Shakespeare, pois não é da natureza dele. O que nós, como sociedade, devemos fazer é tornar o patriarcado mais justo: a mulher deve ter direito ao mesmo salário do colega masculino e às mesmas oportunidades de crescimento pessoal, mas também deve apoiar o seu parceiro na luta por uma licença de parentalidade idêntica à dela e reconhecer o direito de um pai à custódia dos filhos sem reivindicar qualquer privilégio automático como “pagamento” por nove meses de gestação que vivenciou por uma inevitabilidade biológica. Nisto, como em tudo, deve impor-se o supremo interesse da criança, ainda que a mesma não tenha nascido, não tendo a mulher gestante direito de dispor indiscriminadamente da vida de um filho que carregue dentro do seu ventre. Pode ser o corpo dela, mas não é a vida dela para poder impor as regras dela.