**DIE HARD WITH A POPE: A DIVERTIDA JINCANA NAS CRIPTAS DO VATICANO QUE MERECEU CRÍTICAS POR PSEUDOCIÊNCIA.**
CRÍTICA QUE FIZ AO REVER O FILME.
Eu não li o livro que deu origem a este filme. Eu gostei do autor e do modo como escreve, ele sabe fazer livros que se lêem de uma assentada, mas imaginei que fosse parecido com “Da Vinci Code”. Para o efeito da crítica presente, procurei informação sobre o livro, que foi inspirado por uma visita aos subterrâneos do Vaticano e já tinha os ingredientes para um thriller de acção, além de uma dose de mistério e de mentiras científicas que deixaram as “batas brancas” da Europa a arrancar os cabelos. A Sony/Columbia Pictures, sabendo que tinha ouro nas mãos, comprou os direitos e a produção começou logo, com Ron Howard e Brian Grazer a receberem 150 milhões de dólares de orçamento. Desta vez, Akiva Goldsman teve mais liberdade para adaptar o material-fonte, tirando as “gorduras” do livro como se a trama fosse enviada para um treino intensivo de ginásio. Contou com o apoio de David Koepp, um especialista em modelar tensão e ritmo narrativo. O resultado é uma trama que transforma a prequela literária em sequela cinematográfica e explora a rivalidade histórica entre religião e ciência, a existência de uma sociedade secreta há muito extinta e uma ameaça de bomba num conclave papal. As explicações eruditas foram largamente resumidas ou cortadas para que o público se divirta, dando-nos um thriller de acção sólido sem muito conteúdo denso para pensar e com um ritmo homogéneo do início ao fim.
Os trabalhos atrasaram-se devido à greve do sindicato dos argumentistas, impondo adaptações de urgência no cronograma de Ron Howard. As filmagens decorreram entre os estúdios Sony de Culver City, Califórnia, e as ruas e praças apinhadas de Roma, bem como no Palácio Real de Caserta e na Biblioteca Angelica, entre outros espaços. Nenhuma filmagem foi permitida no Vaticano nem em qualquer igreja devido à frontal oposição da Igreja. Dessa forma, Ron Howard infiltrou dezenas de técnicos disfarçados de turistas no meio das visitas ao Vaticano, com ordens para fotografarem tudo em HD. Essas fotografias foram depois usadas para recriar toda a basílica, a Praça de São Pedro e a Capela Sistina num cenário à escala, construído num estacionamento em Hollywood e ampliado verticalmente com chroma key e tectos em CGI. O digital também serviu para criar as multidões na Praça de São Pedro e o efeito da explosão da bomba. O cinegrafista Salvatore Totino quis dar ao filme uma luz fria e crua e contraste alto, valorizando as sombras e a densidade dos espaços. A fim de conferir dinamismo às cenas, usaram câmaras portáteis Arricam ST/LT e Arriflex 235/435 com película 35 mm Kodak Vision3 500T. Hans Zimmer deu continuidade ao trabalho iniciado em “Code”: as melodias novas transpiram ansiedade, urgência e uma sensação de perigo iminente, e combinam com os solos de violino de Joshua Bell. Curiosamente, há melodias nesta banda sonora que me fazem lembrar as peças compostas para três primeiros filmes da franquia “Piratas das Caraíbas”.
Howard voltou a contar com Tom Hanks, mas livrou-o da peruca horrível do filme anterior e deu-lhe diálogos mais ágeis e naturais, permitindo ao actor uma postura mais credível. Ele não tenta ser herói, mas tenta fazer o que lhe manda a consciência e o actor corresponde muito bem. Uma coisa engraçada foi vê-lo parar a meio de um take e sair da personagem para ir ajudar uma noiva a atravessar a multidão e chegar ao casamento. Isso diz-nos muito do carácter empático e generoso do actor. No entanto, quem se destaca mais como actor é Ewan McGregor, a viver uma das fases mais interessantes da sua carreira. Ele dá-nos tudo o que ela lhe pede e rouba a atenção do público. Stellan Skarsgard convence como comandante dos Suíços graças a uma postura analítica, desconfiada e fria e Perfrancesco Favino dá-nos um rosto italiano talentoso para liderar os carabinieri. Ambos se desembaraçam positivamente, o que não pode ser dito de Ayelet Zurer: a actriz faz um bom trabalho com o que tem, mas não se destaca, recebeu pouco material e nada de muito bom. No livro, a personagem seria um interesse amoroso de Langdon, mas tirando-lhe isso parece um pouco a mais no filme. Porque não manter esse interesse amoroso ou cortar a personagem trocando-a pelo director do CERN, que foi excluído do filme?
Além desta personagem feminina, o filme apresenta alguns problemas: os erros científicos são mais que muitos (por exemplo, a ideia de uma bomba de antimatéria é impraticável a todos os níveis), há um assassino à solta no filme sem um motivo muito claro (provavelmente só para matar as personagens que precisam morrer), as conveniências narrativas são risíveis (se Langdon fosse ao toilette papal encontraria pistas no armário do papel higiénico macio, só faltava que o esconderijo dos cardeais raptados estivesse marcado com letreiros néon) e o final é demasiado óbvio a partir do último terço. É divertido, mas é previsível, é muito “Hollywoodiano”.