**UM ESPECTÁCULO DE CGI, MAS QUE FOGE DEMAIS AO LIVRO ORIGINAL SEM JUSTIFICATIVA CONVINCENTE.**
CRÍTICA QUE FIZ APÓS VER O FILME.
Este filme começou a ser desenvolvido em 2006, por proposta da argumentista Linda Woolverton a um grupo de produtores, Joe Roth e as irmãs Todd, que trabalhavam para a Disney Pictures. A ideia dela era criar uma história onde Alice, adulta, regressasse ao País das Maravilhas como uma heroína profética destinada a vencer um terrível monstro. O projecto foi então apresentado a Tim Burton, que adorou a ideia. Pudera! O filme tinha tudo aquilo com que gosta de trabalhar. No entanto, Burton estava apostado em tornar o filme num espectáculo visual apelativo e numa experiência emocional onde Alice descobrisse mais sobre a sua própria identidade.
Apesar de algumas cenas no Reino Unido, em casas como Antony House, a produção apostou pesadamente no CGI topo de gama, pelo que a maioria das cenas foi filmada nos estúdios da Sony Pictures em Culver City, Califórnia. No seu interior, os cenários foram substituídos quase inteiramente por num gigantesco mar de telas verdes de chroma key, criando um ambiente tão desagradável e opressivo que certas pessoas se sentiram mal. Tim Burton, que chegou a usar óculos violeta, acompanhava a filmagem por pré-visualisação digital em tempo real: isto é, enquanto o elenco actuava no vazio verde por ele criado, ele via as cenas quase conforme as tinha imaginado. Para criar as personagens CGI, recorreram a tecnologia de captura de movimento e câmaras Dalsa Evolution 4K, que permitem a posterior distorção das imagens e a criação de figuras como a Rainha Vermelha, cuja cabeça tem o dobro do tamanho normal.
Compreendendo agora como o filme foi concebido e desenvolvido, podemos ter uma avaliação mais justa das suas qualidades. E o seu ponto mais forte é ser, indiscutivelmente, um grande e impressionante espectáculo sensorial. A estética neogótica de que Burton gosta tanto encaixa-se bem no mundo absurdo onde a história se passa, justificando plenamente o interesse do director em fazer o filme, e a sua contratação pelos produtores. A banda sonora concebida por Danny Elfman, colaborador de longa data em projectos deste director, é sombria e estranha como um sonho, e esse onirismo carregado combina muito bem com os excelentes efeitos sonoros utilizados, com os figurinos e caracterização das personagens, e com os visuais de CGI, de boa qualidade para aquela época. Burton conseguiu, efectivamente, recriar o universo de Alice com uma magia e surrealismo que nunca antes tínhamos visto. No entanto, há um senão a considerar: o filme foi lançado em 2010, num momento em que o CGI estava a ser muito explorado, era a grande moda do cinema, e tudo o que é explorado de forma excessiva torna-se cansativo. Por isso, eu compreendo perfeitamente aquelas pessoas que dizem que este filme parece um videojogo da PlayStation e não uma obra de cinema. Falta aqui um elemento de realidade, e Burton terá de entender que o CGI faz um filme espectacular, mas funciona mal sozinho!
Sobre os actores não há muitos motivos de queixa, mas os que há são notáveis. Por um lado, temos de louvar a performance fenomenal de Helena Bonham Carter: a actriz faz mais do que roubar as atenções, ela impõe-se histrionicamente para deleite do público. Ela pode ser a mulher do director, mas provou que não precisa de favores para obter papéis nos filmes dele. Arrisco dizer (e é um risco considerável considerando as qualidades da actriz) que este será um dos trabalhos mais interessantes da sua carreira em papéis cómicos. Anne Hathaway não tem muito tempo nem muita coisa para fazer, a personagem não é muito relevante, apesar de ser referida muitas vezes. Quanto a Johnny Depp, ele faz muito pelo filme com uma interpretação convincente que eleva o Chapeleiro Louco a um nível mais dramático e profundo do que seria de esperar. O que realmente podia, e devia, ter sido tirado do filme é aquela dança final absurda e com um nome ridículo. É o tipo de momento que quebra o ambiente e faz o público pensar “que porcaria foi esta?” Quem se sai pior é Mia Wasikowska, dando uma apatia sonolenta e desinspirada a uma personagem que precisa de mais energia, inteligência e emoção. É um erro não apenas de casting, mas principalmente de direcção. Burton não soube orientar a actriz.
Para mim, o maior erro do filme está na sua própria concepção, e na ideia central do argumento: o esforço de transformar Alice numa heroína predestinada, igual ao que vimos em “Senhor dos Anéis” ou outros, soa como um esforço preguiçoso para justificar o quanto o filme foge do livro, não é uma história que tenha valor por si mesma. Teria mais interesse, eventualmente, como sequela a um filme fiel ao livro original, com a pequena e ingénua Alice tendo o seu primeiro contacto com o mundo mágico. Isso ajudaria a justificar o afastamento da obra literária e o alargamento do universo mágico pela introdução de novas personagens e elementos, o que talvez fosse o plano inicial dos executivos da Disney.