Miller’s Crossing é produto das mentes de Joel e Ethan Coen que mais tarde seriam responsáveis por Fargo (1996) e aquele que é uma verdadeira obra-prima, um filme que transcende o seu próprio médium figurando como um dos maiores expoentes da criatividade e génio humano, The Big Lebowski em 1998.
Aqui estamos na fase inicial da sua carreira, em 1990, sendo este a sua terceira obra após Bood Simple e Raising Arizona. É um neo-noir, seco e emocionalmente reprimido, com diálogos rápidos, carregados de veneno, ironia e desprezo, com homens duros, violentos, a fumar em cadeia e à beira do precipício. Segredos, reviravoltas, traições, tudo está presente numa história que decorre nos meandros do crime, mas cujo foco é uma complicada trama de ligações emocionais e o confronto com uma existência baseada na lei da selva onde só o poder é garantia de sobrevivência.
Durante a Lei Seca, Tom Reagan (Gabriel Byrne) é o conselheiro de confiança de Leo (Albert Finney), um influente chefe do crime irlandês. Quando Leo se recusa a eliminar um pequeno criminoso protegido pela sua amante Verna, Tom vê-se forçado a intervir, temendo que essa decisão ponha em risco o equilíbrio entre os vários grupos do submundo. Envolvido numa teia de lealdades, intrigas e jogos de poder, Tom começa a manipular os diferentes lados do conflito. À medida que as tensões aumentam, ele move-se numa linha ténue entre a fidelidade e a sobrevivência. O seu percurso revela-se cada vez mais ambíguo, mergulhado em traição, frieza e escolhas morais duvidosas.
Tom é uma personagem complexa, um génio maquiavélico, um jogador inveterado, um manipulador amoral, mas também um amigo leal, capaz de causar a morte de alguém, porém cobarde ou sensível demais para puxar ele próprio o gatilho. É uma dicotomia em constante relevo que orienta as suas ações, o coloca em perigo e lhe permite, igualmente, usar as vidas de outros como peças de xadrez numa partida em que sair do tabuleiro equivale à morte.
A intensidade sobe num crescendo até ao clímax em que todos os planos chegam à sua conclusão e o jogo termina e onde é visível como Tom é realmente viciado em risco sejam quais forem as consequências.
No que diz respeito ao microcosmo criminal os Coen focam a profissionalização do criminoso, não havendo nos atos mais bárbaros nada de pessoal, apenas negócios, num prenúncio da criminalidade organizada moderna. Todos os delinquentes entendem essa normalidade da violência e aceitam-na com fair-play e até honradamente. O tipo responsável pela tareia a Tom por dívidas de jogo é cordial e até lamenta ter de o fazer, é apenas o seu trabalho e Tom aceita o seu castigo sem ressentimentos. Quando se mostra fraqueza o outro tomará vantagem e tal é aceite como uma regra e até como algo moral. O mesmo acontece com a corrupção da polícia, fenómeno pintado como absolutamente trivial, até consuetudinário.
O criminoso é humanizado, são homens que amam, assassinos, porém frágeis emocionalmente. Amigos a quem a traição magoa, dotados de uma ética própria que lhes dá, pelo menos, a ilusão de uma honra pessoal. Há censura nos vícios privados, como a homossexualidade, racismo, em particular contra os judeus, desumanização e demonização do género feminino e pequenos ódios privados como no resto da sociedade não desviante. Não se trata de uma apologia dos Coen à delinquência, apenas um realismo digno de elogio que destrói o positivismo de Raffaele Garofalo.
Miller’s Crossing é cinema puro, com algo a dizer sobre a dualidade do ser humano e as suas intricadas, contraditórias e, por vezes, aberrantes emoções. É o produto criativo de dois génios, um privilégio para o espectador, arte no estado puro.