**A história é muito boa, tem bons actores, mas também há problemas derivados da forma como a personagem central foi desenvolvida.**
Dirigido por David Mamet, este filme começa com um pequeno grupo de altos cargos de uma empresa a aproveitar férias pagas pela firma (“férias”, posto que eles praticamente trabalham mais do que aproveitam o tempo para si). Eles criaram secretamente um processo complicado para controlar o mercado global, algo pelo qual muitas empresas estariam dispostas a lutar até à morte. Ocorre que Joe Ross, o principal responsável pela inovação, é basicamente um otário a suplicar para ser enganado! Uma coisa é ser bom ou ingénuo, mas esta personagem ultrapassa qualquer bom senso!
O roteiro do filme é, ao mesmo tempo, o seu melhor activo e o seu maior problema: com efeito, durante a maioria do tempo, oferece-nos uma história desafiante e complexa, que leva o seu tempo para se desenvolver plenamente, e onde cada personagem tem múltiplas camadas de personalidade e, frequentemente, não é exactamente o que aparenta. Todavia, é nos detalhes que o roteiro tropeça, principalmente ao forçar a personagem central a ser tão excessivamente simplória e ingénua que pode parecer burra ou simplesmente servil. É, por vezes, muito difícil de levar a sério por causa disso, parece uma caricatura.
A nível técnico, o filme faz tudo bem feito: uma cinematografia padrão, dentro daquilo que poderíamos esperar de uma produção mediana do fim dos anos 90, mas sem falhas e erros notáveis; bons efeitos visuais e sonoros, um cenário convincente e banda sonora que faz exactamente o que precisa ser feito. A atenção do público, desejava o director, deveria concentrar-se na história que estava a ser contada, e no trabalho do elenco, e tudo o resto é montado para destacar estes dois elementos.
De entre o elenco, a figura que, para mim, mais se destacou foi, indubitavelmente, Steve Martin. É, até agora, o único filme dramático sério em que me recordo de o ver, apesar de eu saber que ele teve uma carreira multifacetada e que é um actor preparado para dar surpresas agradáveis ao seu público. Aqui, apresenta-se de maneira sublimemente feliz e é tão ardiloso e manhoso quanto se poderia ser. Rebecca Pidgeon e Felicity Huffman são as responsáveis pela presença feminina neste filme, e apesar de estarem em minoria dão mostras de grande talento e habilidade. Menos felizes no seu esforço e no material foram Ricky Jay e Ben Gazzara, embora este último tenha conseguido lidar com as dificuldades de uma maneira mais bem-sucedida e eficaz. Infelizmente, Campbell Scott foi uma pobre escolha para protagonista: é um actor virtualmente desconhecido que tem de interpretar uma personagem que parece desejar que não se olhe para ela!