**UM FILME QUE NÃO HUMANIZA A MONARQUIA, MAS A RAINHA QUE A LEVOU AOS OMBROS POR MEIO SÉCULO.**
CRÍTICA QUE ESCREVI DEPOIS DE REVER O FILME.
A rainha Isabel II do Reino Unido é uma das personalidades mais marcantes do século XX: ela assistiu a mais de meio século de mudanças e foi obrigada a adaptar-se a um mundo onde a instituição monárquica é cada vez mais necessária, pertinente e actual, mas também cada vez mais injustiçada e incompreendida. Mais que uma tradição, a monarquia constitucional, nos moldes europeus, assume-se cada vez mais como um garante das instituições democráticas em tempos de crescente instabilidade e de maior descrédito dos políticos eleitos; um pilar sólido onde a independência e soberania do povo encontra um aliado responsável, previdente e capaz de fiscalizar a acção político-partidária e de exigir respostas para problemas de fundo, por meio de estratégias e planos de longo prazo que não rendem votos ou se resolvem com paliativos. Vi este filme pela primeira vez há muitos anos e revi-o agora, já após a morte desta soberana admirável, que cumpriu o seu dever até ao fim.
A ideia deste filme foi do argumentista Peter Morgan, que escreveu um texto onde explorava a reacção à morte de Diana Spencer, a ex-Princesa de Gales, e o embate entre o conservadorismo protocolar da monarca, educada para conter as emoções e executar as suas funções com estóica dignidade, e Tony Blair, um político sagaz que entendia o sentimento popular. Presa à rigidez institucional, Isabel II tinha motivos para não se sentir obrigada a prestar homenagens fúnebres públicas a uma pessoa que deixara de pertencer à sua família. No entanto, Blair percebeu que para o público não era assim, era a sua princesa e a culpa do divórcio residia no adúltero Carlos. A rainha teve de ceder para não cair na raiva do povo, prestando homenagem a uma mulher que detestava e que representava tudo aquilo que ela não era. O argumentista apresentou o texto a Stephen Frears, com quem já fizera um telefilme sobre Blair, e o projecto ganhou consistência. A produção conseguiu um orçamento de cerca de 15 milhões de dólares através de acordos de parceria com canais de televisão e empresas de produção e distribuição de filmes. Os direitos de distribuição nos EUA só foram negociados com o filme pronto.
Sem permissão para filmar em propriedades régias, as filmagens decorreram em Paris, Londres e na Escócia, usando casas históricas como o Castelo Fraser, o Castelo Cluny, Brocket Hall e Waddesdon Manor. O cenário foi pensado com o realismo em mira e o filme faz, em geral, um retrato rigoroso dos acontecimentos públicos. A cinematografia elegante e realista de Affonso Beato recorre a câmaras Panavision e usa filme 35mm e 16mm para representar as diferenças de perspectiva entre a rainha e o primeiro-ministro. É interessante ver como ele mesclou as cenas filmadas com imagens de arquivo reais do funeral de Diana.
O elenco conta com diversos actores britânicos de renome em papéis de apoio. Vale a pena destacar James Cromwell, que trabalhou bem a química com Mirren e mostra-nos o lado simpático e espontâneo de Filipe de Edimburgo. A actuação de Michael Sheen, que deu vida a Blair, é igualmente elegante e inteligente. No entanto, o que faz o filme funcionar de modo notável é a entrega total de Helen Mirren, uma actriz que se pôs totalmente na pele da rainha, estudando os discursos e filmagens, treinando a colocação da voz, os gestos e a humanidade por trás da monarca. Ela soube encarnar a rainha, e parece que até ela soube reconhecer e aprovar esse esforço, embora Isabel II, fiel a si mesma, nunca tenha expresso opiniões em público sobre este filme. O trabalho de figurino e maquilhagem está excelente aqui, bem como a banda sonora, de Alexandre Desplat.
Claro, o filme tem os seus defeitos e problemas. O principal, para mim, é o ritmo razoavelmente lento. Não é um problema real, eu suportei isso muito bem, mas reconheço que não é um filme para todos os públicos e as pessoas que procuram algo mais dinâmico devem sentir-se atraídas por outros filmes. Aqui, o que conta são os diálogos, as interacções entre as personagens, e o estudo da personagem central da trama. Não é um grande drama político. Também observei a forma algo rasa como as personagens secundárias são concebidas. A que mais se salvou foi Filipe de Edimburgo, mas reconheço que o príncipe Carlos, a Rainha-Mãe ou até mesmo a esposa do primeiro-ministro Blair são personagens que carecem de qualquer subtileza e que estão ali apenas para contracenar com as personagens de maior destaque.